“A distinta Rainha, por acaso, tem ciência de que, a prosseguir com as infinitas publicações de textos em seu blog, nós, da Associação dos Moradores e Amigos da Esquina do Desacato, podemos processá-la, junto a International Blogsfera Incorporated Trading Company, por ultrapassar em muito os limites razoáveis de ocupação do espaço internético?
Cara, tamanho volume de pensamentos veiculados está prejudicando a velocidade padrão da rede! Caso ainda haja alguma fagulha de responsabilidade social nessa privilegiada mente, pense nisso!
Sem mais e num mau humorzinho suprajustificável.
Atenciosamente,
Assessora Jurídica do nobilíssimo Visconde de Albuquerque.”

Caríssimo companheiro e representante dos amigos desta esquina,
Ando procurando motivos para expulsar o descrédito.
Não me serve a nostalgia que embala Joaquim, o Ferreira dos Santos, que na 2ª feira, 21/09, ocupou meia página do nosso “maior jornal” com a saudade das suas lembranças: Bat Masterson, Biotônico Fontoura e Trio Esperança (Valham-me deuses!Todos e muitos!)... Tampouco desejo o champanhe ou o cianureto que a ira consagrada do Jabor, no dia seguinte, nos oferecia como opções para acompanhar as sucessivas coisas que não aguentamos mais. Dispenso a alienação. Recuso o suicídio. E agora? Talvez José Castello tenha me promovido uma saída, na sugestão da travessia do meu deserto. Mas por favor, meu caro, que ninguém me chegue por perto a sugerir catedrais... No máximo me ofereça a cumplicidade das pontes – essa coisa que encontra apoio para oferecer passagem sobre abismos.
Quero um motivo que me mexa dentro, por dentro, pelo avesso. Recuso barganhas com a consciência, fingimentos diante daquilo que se vê, e especulações verbais. Quero um trilho para percorrer com o bonde chamado desejo. Quero uma verdade que não apenas revolte, mas revolucione. Quero dizer sem meias-palavras, e se possível, sem formalidades nem setting. E depois visitar o silêncio e escutar os ecos do que vem de dentro. Quero pulsão, pulsação, plus-ação. Quero ser atravessada pelo presente. E de tal modo, que outrora seja apenas o caminho que me trouxe até aqui. Quero a força matriz, a força motriz, aquela que me responde sobre mim, que ancora e parte, parte e encontra, perde e procura, acha e devolve, e pergunta, e provoca e transpira.
É assim, meu amigo: ando buscando motivo que possa sustentar a palavra e seu plural, na aceitação do desafio de ouvir o silêncio e depois dele, a agonia dos ruídos a procura de sentido, de organização semântica e corpo fonético. Ando atrás do imprevisível, do sensível ao toque, do deslumbramento, que seja por um instante, mas de tal forma recoberto de intensidade, que vislumbre a eternidade.
Às vezes rodo às escuras, como sempre acontece quando vamos derivando na evitação dos riscos. De repente estanco, zonza pelo rodopio no mesmo, no inerte, no estéril, no inócuo. Outras vezes, caminho desvairada, desavisada, perdida da bússola e das estrelas, tateando no reconhecimento de referências em que nelas eu me reencontre.
E como você vê, passa uma semana e duas e mais, e as palavras não me parecem próprias, não me parecem o bastante para que mereçam dicção. Então se esvaziam antes mesmo de ganharem papel e nanquim.
Assim que recebi sua intimação ao banco dos réus, encasquetei verdadeiramente em busca de uma explicação que fosse além dessa sensação de inadequação e desejei com honestidade ter mais a dizer, mas esta é toda a minha verdade. Desculpe-me se o decepciono.
Ontem, noutra segunda-feira, fui procurar novamente o Joaquim. O que poderia me trazer depois das suas saudades? De que presente me contaria? Pra que futuro roubaria meu olhar? Qual o quê? Lá estavam as reminiscências mais uma vez... ai que cansaço que tenho do mesmo... vou te poupar os detalhes desta vez.
Um beijo,
Guilhermina
imagem: Gestalt 02. - de L. F. Calaça
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