segunda-feira, 7 de setembro de 2009

só uma palavra me devora - por Visconde de Albuquerque

Finalmente, eis o texto do Visconde que, em mim, operou uma revolução. Só agora, duas semanas depois, ele chega nesta esquina, para obrigá-lo a acreditar que há coisas que não precisam de datas. Este texto é assim: imortal. Beijo, Guilhermina

***

Rainha, minha provocante amiga,

Acordei com tua tese em torno da paz. Era sábado bem cedinho, tempo frio, chovia. O corpo pedia um pouco mais de calma entre os lençóis. Mas a mente, essa deseducada, em alvoroço, sem modos e sem dar-lhe ouvidos, ansiava por abandonar o calor dos travesseiros como um prisioneiro estuda formas de se livrar das espessas barras de ferro. De um pulo, sentei-me aqui.


É esta uma das agendas recorrentes que temos, tu e eu. Tanto é que voltaste a ela na última postagem. Tu, recusando-a, a paz, peremptoriamente - no que me aturdes. Eu, tendo que ouvir de Duda, como a proteger-me: "Quero para ti um pouco de paz". Ora, ora. Que enrascada. Também eu gostaria de um pouco de paz, Maria Eduarda. Quanto mais não seja, até para saber como é. Ainda pouco sabes de mim, meu benzinho, mas logo te alerto: não passo de um atormentado, em sistemáticas tribulações. Guilhermina, amiga que me vês como a um vidro, rogo-te - vá em socorro desta alma desprevenida e revela minha verdadeira identidade. Muito prazer, ansiedade, teu nome é Albuquerque. Tensão, teu sobrenome. Não te iludas com este ator, linda menina de olhos verdes. Onde queres família, sou maluco, como bem me definiste.


Por fora, champanhe à beira-mar a contemplar a lua. Por dentro, uma explosão de conflitos, contradições, guerras de napalm, paióis de dinamite, trincheiras, munição pesada. Encobertos pelas nuvenzinhas azuladas do papel de parede decorativo, descortinam-se grotões, canyons, despenhadeiros, cavernas. Disfarçado de um aspirante a druida, um gladiador. Por trás de um projeto mal acabado de lord inglês - dedicado à arte de agradar às mulheres, na leda ilusão de ser amado por elas -, um viking, um bárbaro, um pirata. Que ninguém nos ouça, estamos falando de um impostor. É questão de tempo ser desmascarado.


Ainda protegido pelo anonimato, observo os semelhantes ao meu redor. Como podem ter paz quando há tanto a ser visto, ouvido, lido, pensado, escrito, conversado, abstraído, estudado, trabalhado, descoberto, viajado? Se a vida é criação e recriação diárias, a exigir renovação incansável? Se há urgência no aprofundamento do que implora a alma, em mergulhar na escuridão? Se é preciso sofisticar o conhecimento, refinar os sentidos, apurar o paladar? Se são tantas, mas tantas, inesgotáveis as questões?


Onde a paz, se preciso conhecer Fernando de Noronha; aprender francês para ler "À la recherche du temps perdu" no original; provar o sorvete de tangerina do Mil Frutas; ouvir o CD de Nelson Freire sobre Chopin; cozinhar para o meu amor, fazê-lo sorrir e brincar na doce intimidade dos apaixonados; te ver feliz, bonita e desafiante como sempre, Guilhermina; abraçar meus amigos; construir utopias; assistir ao DVD de Mart`nália; ver o Cirque du Soleil; jantar no El Bulli; entrevistar Marina Lima; saltar de asa delta para vencer o medo de altura; aprender a perdoar? E, acima de tudo, tentar desesperadamente escrever algo que preste em tua esquina, minha adorada? Como é possível não ter pressa, se tanta coisa me interessa, inclusive a Paula Toller?

"Luto não contra os que compram apartamento e carros e procuram casar e ter filhos, mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de espírito". Clarice Lispector. Sempre Clarice. Nada do que posso me alucina tanto quanto o que não fiz. E, à maneira de Calcanhotto, "eu não tenho pena dos traídos, eu hospedo infratores e banidos, eu gosto dos que têm fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem". A ação circular de mais do mesmo me consome. Ruptura é palavra linda.

Paz. Sem tê-la, sigo a imaginá-la, quase a flertar com ela. Intuo que deva ser uma brisa, um sopro tão bom como olhar demoradamente a quem amamos, abraçar na nossa cama o corpo que tanto desejamos, sentir o cheiro do cabelo da namorada. Ou a saudade dela, quando sabemos que nos aninharemos em seus braços ao final de um dia de trabalho, em total entrega e abandono. Enquanto a paz não invade o meu coração, minha rainha, eu pensei em ti, eu pensei em mim, eu chorei por nós. Que não temos sossego. Eu ainda mais que tu, por - em virtude de tamanha intemperança -, nem ao menos fazer idéia do que vou ser quando (e se) crescer.


Deixo-vos com a inebriante "Canto Triste", de Vinícius e Edu Lobo (na voz deste), a qual amanheceu no mencionado sábado comigo:

http://app.radio.musica.uol.com.br/radiouol/player/frameset.php?opcao=umamusica&nomeplaylist=005756-3_10<@>Edu_e_Tom<@>Canto_Triste<@>Tom_Jobim/Edu_Lobo<@>0339<@>Edu_Lobo/Tom_Jobim<@>POLYGRAM<@>Mercury


E, para completar a trilha melancólica, mais duas de Vinícius (com Tom):


"Modinha", na voz de Elis.

http://app.radio.musica.uol.com.br/radiouol/player/frameset.php?opcao=umamusica&nomeplaylist=002090-4_04<@>Elis_e_Tom<@>Modinha<@>Elis_Regina/Antonio_Carlos_Jobim<@>0212<@>Antonio_Carlos_Jobim/Elis_Regina<@>POLYGRAM<@>Philips


"Serenata do Adeus", na voz de Eugênia Melo e Castro:

http://b.radio.musica.uol.com.br/radio/index.php?param1=homebusca&check=musica&busca=serenata%20do%20adeus#

4 comentários:

Nine de Azevedo disse...

Querido Visconde de Albuquerque, que alma atormentada mais linda!Tenho a pretensao de entende_lo porque tb me sinto uma alma atormentada.Quero paz ,mas ela sempre esta num outro lugar como a felicidade de Prevert,sempre correndo num outro campo em que nao estou...Peça a sua Duda para ter paciencia .Os atormentados sao pessoas muito interessantes ,é so deixa_los nessa chama eterna que lhes consomem!bjs

eduarda disse...

Mon cher vic

Como um quebra-cabeça,
suas mil partes sempre me fascinaram.
Desde sempre.
E me despertaram caminhos,entreabriram portas,iluminaram-me.
A mim e a muitos.
Desejo que encontres a paz,sim.
Sempre.
E que estejamos juntos para discordarmos.
Beijo

CeciLia disse...

Visconde e Rainha

Já do lado de fora do meu silêncio, os leio daqui. E me leio tanto, mas tanto, em vocês.

Beijos

Cecilia

Visconde disse...

1. Nine, querida, mui grato pela gentileza de sempre. Um beijo, querida.

2. Duda, Duda, bebe na fonte de sabedoria de nossa Nine.

3. Cecília, teu silêncio foi notado por aqui. Primeiro, nossa rainha, depois tu...Obrigado pelo carinho.

4. Rainha, alô-ô! Tem alguém na linha? Abraço-te com saudade, minha amada.