segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

primeira pessoa - por Aristides

Querida Guilhermina,


Tomei coragem e cá estou eu em primeira pessoa. Já havia lhe confessado uma certa fobia por textos em primeira pessoa. Talvez, por vício de ofício, a primeira do singular me cause arrepios. Eu penso, eu afirmo, eu concordo, eu discordo ... reconheço certa aversão ao cartesianismo, tu-do tão ar-ru-ma-di-nho no lu-gar. E, afinal, os críticos que cumpram seu papel.


Aprendi, um pouco (ou melhor) um tanto com você, o quanto podemos nos trair na afirmação abusiva da primeira do singular. Infelizmente, minha amiga, o Iluminismo também se equivocou. E também, Guilhermina, te sussuro um dos meus maiores temores; a de que tudo seja mera retórica, só dependendo da premissa da qual partimos e do ponto aonde queremos chegar. As demais razões para as minhas reticências são bem menos nobres: medo de não encontrar as palavras ou de soar como velha "punheta verbal". No entanto, ao me tornar assíduo dessas pág inas, seu convite me seduziu e assumo aqui outra premissa: tudo em primeira pessoa, sem a terceira do plural: "chegaram", "falaram", "recusaram" e sem as aspas.


O encontro nesta Esquina do Desacato tem, pois, mais um adepto. Neste primeiro post, quero lhe desejar boa ventura nestas páginas virtuais em que você trilha seu caminho pelas palavras. O cardápio é sem dúvida variado. A propósito, só um comentário sobre o texto do Natal: estou com os detratores da festa do bom velinho, mas isso não é novidade para você. Eu tento, eu juro, cair nesse papo de "uma época para nutrir bons sentimentos". Mas no meu caso, os bons sentimentos entre os que eu amo não precisa de um Natal. Sem dizer que as frases "Saudade, prosperidade, harmonia, paz, etc.", ditas assim ao vento me soam tão, mas tão esvaziadas, que não consigo vibrar na mesma sintonia. Além disso, por falar em sentimento cristão te faço outra confissão. Já me bastaria se homens e mulheres conseguissem seguir o ditado (e olha que nem é mandamento) "não faça com os outros o que não queria que fizessem com você", por que o mandamento (este sim) "amai ao próximo como a si mesmo", já me parece que é pedir demais.


Mas o que você não sabe, minha cara, é que você tem a capacidade, senão me tornar um entusiasta natalino, de pelo menos me emocionar com a sinceridade de seus sentimentos. Talvez, esteja aí o tal sentimento natalino; se emocionar com o outro. Estas páginas que leio também me emocionam.

beijos;
Aristides

rio do ano inteiro



para Nine


Foram dois anos de trabalho da fotógrafa Cláudia Ribeiro. O resultado é este poster-presente - uma comoção de cores. Prova de como o mesmo pode ser tão diverso. Testemunho de que o espetáculo está à nossa frente, mas é preciso poder vê-lo.
Beijo
Guilhermina

sábado, 27 de dezembro de 2008

cheguei - por Rita Ludolf




Querida Guilhermina,

Sim, fiquei preocupada. Fui até o Jobi, numa noite chuvosa desse Dezembro irreconhecível, para te ver. Lá soube que você estava experimentando uma outra esquina. E quando perguntei ao garçom o novo endereço, ele me olhou de cima abaixo e respondeu: “A do desacato”. Morri de rir. Claro! Tinha que ser. Desde sempre a verdade e a indignação são componentes da tua medula.

Mas, antes de qualquer assunto, peço que me desculpes o silêncio. Você mais que ninguém, sabe que prefiro saborear as nossas conversas em particular. Percebo e me preocupo com o estreitamento de minha paciência para os socialmente corretos. Fico atordoada quando a noite avança e a mesa fica repleta de borboletas ébrias, capazes de interferências levianas e inoportunas que nos obrigam a voltar quilômetros, por educação. Nesse sentido, tenho muito que aprender contigo. Ainda mais quando me olhas com seu marrom sorridente, às três da manhã, inebriada com mais uma possibilidade de troca. E que energia tens para dar detalhes! Ok, sei que o investimento na alma humana é uma das tuas causas. Também reconheço que tens uma escuta privilegiada. E que na maioria das vezes a conversa acaba tomando rumos inusitados, até compensadores. Eu não tenho essa energia lapidadora! Mas deixa estar. 2009 já esmurra a minha porta exigindo novas metas e desafios. Portanto, aqui estou. E devo acrescentar que vim para ficar. Vamos colocar mais cadeiras nessa mesa.

E se queres saber, foram as rabanadas desse Natal que me mostraram a importância da memória, da construção e do reconhecimento. É necessário criar intimidade com novas paisagens para que não nos tornemos turistas em nosso próprio quintal. Mas isso fica para outra conversa.

Só queria inaugurar esse encontro. E te parabenizar pela coragem de recomeçar. Não demora nada, e a esquina do desacato vira point.

Um brinde a isso.
Até já, Guilhermina, e um beijo muito carinhoso.
Rita

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

depois do natal

Sexta-feira. Dia 26, reta final de 2008. Fechamos a festa natalina e nos encaminhamos para a festa da virada. Já sei. Já sei. Já escuto a turma do “que virada? É tudo um dia depois do outro... Não muda nada etc. e tal”.


É verdade, minha gente, desse jeito não muda nada mesmo. Levem em frente a crise, alienem-se mais um pouco para ajudar a passar o tempo. Arrastem a corrente e depois reclamem igualzinho. Mantenham-se firmes na certeza de que nada tem jeito, porque claro, a culpa de tudo é de qualquer um que não seja você mesmo. A política, a corrupção, o sistema, a globalização, a mídia, a televisão... qualquer coisa e tudo junto. Sem cara, sem alma, sem corpo, são sempre os gigantes anônimos os culpados da sua triste tragédia pessoal. Não é isso? Aliás os inimigos não tem sequer endereço aonde ir reclamar, e portanto, não tem nem como você insurgir-se, certo? O jeito é definitivamente “sifu”, como, aliás, recomenda até o presidente.


A propósito, só pra uma conferida rápida: vocês leram hoje no jornal O Globo, caderno opinião, página 7, um pequeno texto assinado por Julita Lemgruber — O nome do jogo de Obama?


Pois é, descreve a continuação da mobilização nacional americana em torno da proposta de mudança de Obama; e do uso da internet na organização, difusão e manutenção desta proposta.


Em resumo, o que Julita nos conta de lá é sobre uma disposição para o trabalho e para o crédito. E é preciso sublinharmos a distinção entre crédito e esperança. Se o crédito nasce da possibilidade de acreditar numa possibilidade e via de regra, para isso há exigência de condições; a esperança nasce da passividade de quem espera. Uma espera do que for, até de um milagre, pois é o outro que vai fazer...


Podemos falar muita coisa do povo americano, mas não que chegaram ao topo do mundo esperando... Voltemos ao texto da Julita: “no final de semana de 13 e 14 de dezembro, centenas de encontros organizados pela internet, com a participação de milhares de pessoas aconteceram. O entusiasmo das discussões e a crença de que ‘juntos podemos mudar’ dominou as reuniões... Todos apostando na possibilidade de contribuir com a administração de Obama, mas sobretudo, querendo aproveitar o momento para construir um novo estilo de participação cidadã.”


No dia 1º de janeiro, toma posse o nosso novo prefeito, Eduardo Paes. Aquele eleito por nós, com a ajuda de um golpe de mestre do nosso governador, que sabendo o povo que representa, decretou um feriadão no segundo turno. Correspondendo à expectativa do nosso líder estadual, comemos o queijo da ratoeira enquanto aproveitávamos o sol nos lagos da região. Foi pouco mais de 50%. O que importa agora? Trocamos quatro dias de sol por quatro anos de Paes. Fez-se a vontade do povo. E do governo.


Vamos ter que encarar. Façamos parte da metade vencedora ou da metade perdedora nas urnas, vamos ter que encarar. A questão, portanto, é como. Mais uma vez a poesia nos serve de conselheira e suplica “parem de falar mal da rotina”. Sugiro então uma Ode ao Rio.


Se assim não o fizermos, pode até ser que o Paes seja mais um culpado, mas a insatisfação e a infelicidade continuarão sendo nossas. Fim de 200. Que o infinito esteja logo adiante.


Beijo,

Guilhermina

domingo, 21 de dezembro de 2008

somente Pessoa

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
Fernando Pessoa

Hoje procurei por Pessoa. Sentei-me ao lado do seu desassossego para ouvir mais uma vez sobre as cartas ridículas de amor e sobre poemas em linha reta. Pedi-lhe ainda que me falasse mais uma vez sobre ser inteiro e sobre o resto... sombra de árvores alheias...

Pedi-lhe que me revelasse o segredo da sua identidade múltipla: Álvaro, Bernardo, Alberto?... Quase pude tocar-lhe o sorriso, ao me responder: somente Pessoa.

Elisa, a Lucinda, veio em meu socorro com o recital Fernando Transformando Pessoa, comemoração dos 120 anos de nascimento do poeta. Veio com sua arte de dizer.

Que pode ter maior sentido que esse de tocar e fazer do outro, um novo outro? Aventura que a arte se propõe com ou sem palavras, que arte é coisa para os revolucionários, os que podem ver muito além da reação.

Então não somos todos múltiplos? Coerentes somente se idiossincráticos? Felizes pela intimidade com a tristeza? Tão generosos quanto a possibilidade de nossa mesquinhez. Amorosos no avesso do ódio e verdadeiros no vislumbre do cinismo? Ora, quem não conhece sua face de horror e sordidez? Quem nunca vislumbrou o semblante de seu antagonista? Não. Não falo do inimigo que mora ao lado. Falo do que mora dentro. Do que nos co-habita, dividindo o ar, a pele e o sangue. Somos, no fundo gerentes de uma gangue em reabilitação.

Às vezes, muitas vezes, me pergunto o porquê de usar tanta energia na sentinela dos anjos esquerdos. Só encontro uma resposta: a imagem que me encara no espelho. Gostar de me ver. Quer-se mais? Claro que sim, a partir e no limite dessa premissa e desse destino.
Beijo,
Guilhermina

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

natal 200∞




Semana passada, foi o Joaquim, que até ressuscitou o Adamastor, personagem do Antônio Maria; nesta terça-feira, o Jabor, que antecipando as férias para antes do ano acabar, esculhambou o Natal. Pois bem, o bom velhinho não existe tanto quanto a Dona Benta e o Visconde de Sabugosa, mas sua história é tão encantadora quanto uma aventura com Emília, no Sitio do Pica-Pau Amarelo.

Eu a-d-o-r-o o Natal! Adoro essa época do ano em que é impossível não lembrar das pessoas queridas. Adoro esse despudor afetivo e a profusão de presentes, mensagens, brindes e amigos, até ocultos. É claro que gostaria de ter mais dinheiro para tornar efetiva toda a minha vontade de presentear. Detesto cortar a lista. Sim, porque sempre coloco lá todos os nomes daqueles para quem eu gostaria de ter um presente e fico brincando na ciranda das vitrines, luzes intermitentes e cantigas. Brinco de procurar o que cada um gostaria. Brinco de multiplicar moedas para que caibam todos. E mesmo que nunca consiga, esse passeio amistoso pela memória afetiva anual é uma carícia sempre.

Por mim, o Natal seria no mínimo trimestral: um por estação do ano. Talvez a gente reaprendesse o prazer de declarar o afeto e de vibrar numa sintonia mais otimista e solidária. Quem sabe destrancaríamos o sorriso e exercitaríamos o abraço, desenferrujando a fraternidade. Cafona. E daí? Já nos perguntou Sérgio Brito.

Tem duas coisas que adoraria possuir com menos restrição: a facilidade suburbana de se avizinhar e a destreza publicitária em condensar a mensagem. Comida farta, irmãos de sangue ou de alma, conversa fiada regada a uma bebididinha – cerveja ou prosecco? – música brasileira e um presente ou dois. O que poderia ser melhor? Só 2000inove!

Pra quem não conhece isso, amigo meu, fica o meu convite: passa lá em casa.

Feliz Natal
Guilhermina

domingo, 14 de dezembro de 2008

convite

video

Aprendi com esses artistas de rua a vencer o medo e a vergonha e seguir dizendo o que eles, mais competentes que eu, conseguem fazer com arte.

Desacato. Adoro essa palavra. Adoro esse lugar. A idéia de avesso à obediência, à veneração, à reverência me é tão instigante quanto a concórdia (essa sim, aceitar com o coração).

Nesses dias em que lembramos o nefasto capítulo da nossa história – 40 anos do AI5 – a mídia tem trazido à tona a participação da sociedade civil nos acontecimentos que envolveram perseguição, tortura, exílio e morte daqueles que lutavam por um ideal menos corrompido e mais democrático, menos hipócrita e mais distribuído entre todos. A cultura do contra vinha com um tapa na cara de uma sociedade herdeira da época vitoriana – moral e bons costumes, tradição e propriedade. Muitos daqueles que ‘tombaram’ era ainda meninos; muitos daqueles ‘companheiros’, que resistiram, hoje são lideranças (e que lideranças!?). Quantos ‘endireitaram’? Quantos enlouqueceram?

Diante dessas reflexões que nos atormentam como uma herança maldita, a pergunta que talvez realmente faça a diferença seja: se não era militar, se não era companheiro na “revolução”, quem era você? O pecado de Pilatos também foi somente lavar as mãos. E não se trata de promovermos uma nova e tardia inquisição, mas de perguntarmo-nos sobre o agora. O mundo e a vida têm nos postos algumas questões semelhantes à época, como se estivéssemos alguns degraus acima, alinhados no mesmo meridiano. A fome, as tragédias ecológicas, a erosão do sistema econômico e financeiro mundial, o populismo das lideranças na América Latina, o armamentismo, o terrorismo, o individualismo puxam a seqüência perigosa de “ismos”, sobre o qual já ponderamos antes.

E nós? Mais duros, mais céticos e mais reativos? Mais defendidos em justificativas de retaliação? De vingança, a vizinha maligna da justiça? Mais protegidos no princípio do ‘salve-se quem puder’? Mais cults, mais cleans, mais estéreis? Indiferentes, seria a melhor palavra? É provável. Sem fazer diferença alguma, que isso é coisa para os sentimentais, uma espécie de idiotas que ainda pensam que causa precede conseqüência e que é a partir de um que se faz a distinção.

Essa é uma esquina para o encontro, a partir da constatação de que somos sós, perambulando pelo mundo. Esse é um convite à sua opinião, à sua reflexão, ao seu protesto, à sua indignação, à sua possibilidade de produzir no ato de contemplar, notar, observar.

A roda está aberta. Esse é um convite para um festival de idéias que possam dialogar, provocar, impulsionar. Deixe seu comentário ou, se preferir, envie seu texto para ataufocomrainha@gmail.com

Até breve,
Guilhermina