domingo, 21 de dezembro de 2008

somente Pessoa

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
Fernando Pessoa

Hoje procurei por Pessoa. Sentei-me ao lado do seu desassossego para ouvir mais uma vez sobre as cartas ridículas de amor e sobre poemas em linha reta. Pedi-lhe ainda que me falasse mais uma vez sobre ser inteiro e sobre o resto... sombra de árvores alheias...

Pedi-lhe que me revelasse o segredo da sua identidade múltipla: Álvaro, Bernardo, Alberto?... Quase pude tocar-lhe o sorriso, ao me responder: somente Pessoa.

Elisa, a Lucinda, veio em meu socorro com o recital Fernando Transformando Pessoa, comemoração dos 120 anos de nascimento do poeta. Veio com sua arte de dizer.

Que pode ter maior sentido que esse de tocar e fazer do outro, um novo outro? Aventura que a arte se propõe com ou sem palavras, que arte é coisa para os revolucionários, os que podem ver muito além da reação.

Então não somos todos múltiplos? Coerentes somente se idiossincráticos? Felizes pela intimidade com a tristeza? Tão generosos quanto a possibilidade de nossa mesquinhez. Amorosos no avesso do ódio e verdadeiros no vislumbre do cinismo? Ora, quem não conhece sua face de horror e sordidez? Quem nunca vislumbrou o semblante de seu antagonista? Não. Não falo do inimigo que mora ao lado. Falo do que mora dentro. Do que nos co-habita, dividindo o ar, a pele e o sangue. Somos, no fundo gerentes de uma gangue em reabilitação.

Às vezes, muitas vezes, me pergunto o porquê de usar tanta energia na sentinela dos anjos esquerdos. Só encontro uma resposta: a imagem que me encara no espelho. Gostar de me ver. Quer-se mais? Claro que sim, a partir e no limite dessa premissa e desse destino.
Beijo,
Guilhermina

3 comentários:

Nélida Capela disse...

Pessoa em homenagem à Rainha Guilhermina:

Eros e Psiquê - Fernando Pessoa

Conta a lenda que dormia/Uma Princesa encantada/
A quem só despertaria/Um Infante, que viria/De além do muro da estrada. / Ele tinha que, tentado,/Vencer o mal e o bem,/Antes que, já libertado,/Deixasse o caminho errado/Por o que à Princesa vem./ A Princesa Adormecida,/Se espera, dormindo espera,/Sonha em morte a sua vida,/E orna-lhe a fronte esquecida,/Verde, uma grinalda de hera. / Longe o Infante, esforçado,/Sem saber que intuito tem,/Rompe o caminho fadado,/Ele dela é ignorado,/Ela para ele é ninguém. / Mas cada um cumpre o Destino/Ela dormindo encantada,/Ele buscando-a sem tino/Pelo processo divino/Que faz existir a estrada. / E, se bem que seja obscuro /pela estrada fora,/E falso, ele vem seguro,/E vencendo estrada e muro,/Chega onde em sono ela mora,/ E, inda tonto do que houvera,/À cabeça, em maresia,/Ergue a mão, e encontra hera,/E vê que ele mesmo era/A Princesa que dormia.

Nélida Capela disse...

Diálogo Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner Andresen:


Poesia
-Sophia de Mello Breyner Andresen


Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Maria Claudia Pompeo disse...

querida Guilhermina,
obrigada por suas palavras e sua visita ao meu blog ( quase abandonado).
já adicionei este aqui pra me esbaldar em seus textos.
agora escrevo mais por aqui:
sabeassim.blogspot.com

pois como sabe, as pessoas começam a saber demais e vou me "escondendo" em novos endereços e vou me sentindo mais à vontade para escrever mais abertamente.
está convidadíssima a fuxicar meus devaneios.

obrigada, um ótimo ano novo! estou feliz que esse já está indo embora!

beijos
Maria Claudia