sexta-feira, 13 de março de 2009

Pedir desculpas não resolve mais! – Por Susanna

Semana Farta. Pra minha felicidade! Os textos começaram a chegar ainda no domingo, com o Visconde e suas relíquias... Depois, Nine fez de nós confidentes. E, pasmem!, no mesmo dia recebi da Susanna este relato que vem a seguir. Sinto-me honrada de que tenham correspondido ao meu convite com tanta generosidade. Puxei minha cadeirinha, guardei meus alfarrábios e coloquei-me a escutar. E já vou avisando: há mais um texto do Visconde no prelo. Sai amanhã, em edição extra, ok?

Um beijo,
Guilhermina


Queridos,

Há já algum tempo venho procurando pensar numa temática interessante para trazer aqui à Esquina, mas nada suficientemente bom – de acordo com os meus parâmetros perfeccionistas – me ocorria; nada no campo das contemplações, melhor dizendo, posto que imaginação tenho à cântaros. Entretanto, eis que hoje, dia 11 de março, vi-me envolvida numa situação que beira o absurdo. Tanto que, imbricada à proposta dessa “roda”, cabe perfeitamente como proposição para o meu texto. Convido-os, portanto, para que puxem suas cadeiras, ou almofadas se preferirem, mas fiquem confortáveis: o texto é longo, mas o assunto é interessante!

Nessa quarta-feira tive um encontro com o meu pai. Sim, há cerca de uns 4 ou 5 anos passei a ser “filha-de-pais-separados”, o que encaro numa boa. Lógico que toda a separação é problemática, e sempre ficam, na melhor das hipóteses, algumas cicatrizes. Tenho cá eu as minhas; e a distância do meu pai é uma delas. Pois sim: encontramo-nos hoje! Que alegria! Meu pai é ser humano cheio de problemas. No entanto é leve – e isso nada tem a ver com ser calmo, ou paciente. Somos, nós dois, detentores de pavios muito curtos. Mas meu pai existe como figura pouco carregada de tensões; erra e permite-se aprender; pede perdão; é humilde e consciente de seu potencial; tem muitos defeitos, muitos mesmo, mas muitas qualidades admiráveis. E depois de quase um mês, estivemos juntos novamente.

Tomamos nossa bebida preferida juntos: café. Conversamos sobre nossas vidas, empregos, algumas coisas do mundo, e sobre minha mãe. O tempo era curto – eu em horário de trabalho, agradecida a Deus por ter concedido ao meu chefe níveis suficientes de benevolência para me permitir ausentar do escritório durante 40 minutos; meu pai tinha outros compromissos marcados ainda para aquela manhã – e não dava tempo de ter tempo com ele. Vida que segue. Ele pagou o café e nos dirigimos ao ponto de ônibus mais próximo, a fim de que ele tomasse a condução de volta pra sua casa.

Nesse momento, ainda envolvida e perdida em saudades – que não têm só a feição de hoje, antes carregam a imagem da menina que, aos cinco anos, esperava, com os grandes chinelos dele nas mãos, o pai chegar do trabalho; ou uma de que gosto mais: a da filha amada, que ouvia, com um sorriso nos lábios, o “minha princesinha” dedicado a qualquer motivo que revelasse ter muito mais desse pai, do que só o sangue que lhe corria nas veias –, gesticulei expansivamente, como me é característico, abrindo os braços pra apontar qualquer coisa sobre a qual conversávamos.


O meu mundo parou. Esse mundo fantástico que tinha a ver comigo e com o meu pai, apenas, parou. Sem querer o meu gesto com o braço foi parar no rosto de um senhor, que passava na rua, justo nos meus 40 minutos com o meu pai. O que ele tinha de fazer ali? Invadiu o meu espaço, e ainda trouxe consigo todo o peso da realidade de uma vida sem magia e gentileza. Ofereci, como manda a boa educação, um pedido de desculpas pelo incidente. Mas àquele homem isso não servia.


Depois de conter todos os muitos, suponho eu, impropérios que lhe vieram à boca (deixando escapar um, que ouvimos – eu e meu pai), esse homem pretendeu seguir seu caminho, e sem aceitar o meu pedido de desculpas, o que me ofendeu profundamente. A despeito disso, relevei a atitude dele, pensando que cada um tem o direito de reagir da maneira que lhe couber melhor nesses casos. Mas meu pai, como eu, tomou aquilo por absurdo e não tolerou a atitude do tal senhor, saindo em minha defesa. Nada de mais: apenas fez uma cara feia das boas, e cruzou os braços em reprovação.


Esse homem, ao ver isso, colocou-se agressivamente diante do meu pai, entendendo que ele nada tinha a ver com o que havia acabado de acontecer – acredito que ele não tenha percebido, mas era O Meu Pai que estava ali, não um homem qualquer, como ele. Vivemos momentos de tensão. O homem me acusava de ter-lhe dado uma “bolacha” (!), eu me desculpava mais algumas vezes (o que não surtia efeito nenhum àquela altura), e meu pai cobrava energicamente que aquele aceitasse o meu pedido.


Tentando manter a calma, consegui contornar a confusão chamando a atenção do meu pai para mim, e gesticulando para o homem, de maneira que ele entendesse que precisava seguir, e deixar-nos em paz! Despedi-me do meu pai, e voltei ao trabalho. Fiquei pensando em como as pessoas andam à flor da pele. Tão egoístas, e, nesse sentido, detidas apenas em si próprias e no que lhes tira a paz, que são capazes de oferecer resistência a um pedido de desculpas. Será que ainda há possibilidade de retornarmos ao lado da história onde pedir desculpas resolvia esse tipo de atrito, tão pequeno, ou teremos que ficar com essa face da moeda?


Pois bem, eis aí o relato sobre o dia em que descobri a medida da ineficácia que um pedido de desculpas pode assumir atualmente...



Aos que me acompanharam, meus agradecimentos! Sei que falo demais... Por isso, desculpem (acredito que este pedido ainda sirva a vocês..rs..) minha prolixidade.


Beijos e até a próxima!

Susanna



quinta-feira, 12 de março de 2009

ela é um quadro de Rembrandt: mestre do claro-escuro - por Nine



Nem sei por onde começar a descrever o quadro... Tudo que me chama a atenção é a solidão, a dor, um choro alto de soluçar que quando acaba ficam as lágrimas a escorrer como pérolas lentamente pelo rosto dela. Ela nunca as seca. Fica parada olhando o vazio. Vai para terras distantes. Terras que não existem mais, como Atlantis naufragada. Mas ela, como um catavento se movendo em todas as direções interiores, vai para lá assim mesmo. Só encontra dor, desalento, agreste, terra rachada e infecunda.

Ela não tem escapatória, aonde ir buscar aconchego, parece um animal ferido acuado sufocando sem conseguir gritar. E também o que adiantaria gritar?...

Não o traria de volta, não apagaria a dor, a tristeza, a rejeição, a traição, a crueldade mesmo do abandono. Virou um cão sem dono. Nem vira-lata é, porque não anda por ai perambulando livre e se divertindo a mancheias em camas alheias. Só fica ganindo no seu canto escuro. Às vezes ela vê umas luzes. São afetos, são filhos, são amigos novos e velhos. Mas logo tudo fica escuro de novo...

Sua vida agora é uma pintura de claro-escuro. Bonita e profunda. Companheira de Gericault, louco e desesperado, vivendo numa bolha patética e de intenso sofrimento.

Acabou o tempo de amor, harmonia, de frissons de volúpia, de risos e de aconchego. Que também só existiam para ela nos últimos tempos com ele. Para ele, já tinham acabado mesmo quando ele ainda estava lá... Ela não percebeu...

Os lamentos dela, nesse país estrangeiro que virou a sua vida substituíram seus sonhos. Viraram pesadelos. Acho que por isso ela não dorme, tem medo dos sonhos-pesadelos...

Baudelaire, seu poeta predileto, escreveu que tinha que acreditar no diabo porque o sentia nele. Ela acha que ele vive escondido na sua casa. Nem S.Miguel de quem ela era tão devota, a livra desse tormento. Angústia e solidão, esses sim, os verdadeiros diabos!

Ela queria a expiração dos temores, do ressentimento, da mágoa e principalmente da dor. Queria um novo amor, pelo menos paz. Ser uma alma atormentada é tão exaustivo...

Ela acende velas para sair da escuridão, mas elas logo se apagam. A luta anda desigual. O pedaço dela que ficou nele, o futuro juntos que se perdeu, como restabelecer, se regenerar ou criar outro?

A aposta enorme que é amar o outro é muito arriscada, só para muito corajosos. Porque nós sabemos do nosso comprometimento, mas nunca sabemos realmente o do outro. São os gestos, as atitudes do outro é que vão demonstrar, não as palavras. Às vezes não ficamos muito atentos, é a vida para levar... Não enxergamos bem o outro, ele também dissimula, torna mais difícil esse caminhar juntos.

Nossas almas são tão frágeis, se quebram facilmente. Mas ela ainda não desistiu. Ainda vai continuar a procurar a razão dela de conjugar o verbo AMAR. Com todos os riscos e aventuras decorrentes... porque seria mais insensato não pensar nessa possibilidade.
dedicado a Rainha Guilhermina e a Bailarina Suspensa,
duas novas luzes na minha escuridão.
Bjs afetuosos.
Nine

terça-feira, 10 de março de 2009

patêr de figo - por Visconde de Albuquerque

Minha querida,

A alma sensível desse teu amigo - cabeça de homem, mas o coração de menino, à maneira de Dom Erasmo, o Grande - se choca diariamente com a grandiloquência do nada, a incrível repercussão do vazio. Outro dia, li que um jovem ator de TV se preocupa com o que diz, porque sabe que é um "formador de opinião". Pelas barbas do profeta, que todos os seus longos fios brancos me livrem desta expressão "formador de opinião". Mas, vá lá que seja, que este ator tome bastante tenência de suas palavras, pois o que vier a falar será de profundo vetor a orientar-nos a existência. Na outra ponta, uma veterana atriz, por sua vez, ao ser indagada porque furava a fila num camarote no carnaval, sai-se com: "Eu sou fulana de tal, meu amor".

Minha amiga 1: em algum momento da entrevista de Nélida, houve alguma auto-referência como "formadora de opinião"? Minha amiga 2: alguém já viu essa que é uma das ocupantes da Academia Brasileira de Letras num flagrante fura filas, por identificar-se como Nélida Piñon? E o que dizer da resposta mais frequente dos que se têm em altíssima conta (qual é o nome do analista deles? qual é o nome do analista deles?), à singela pergunta: "Qual o seu maior defeito?" Inveja? Intolerância? Soberba? Cobiça? Avareza? Orgulho? Qual o quê! "Perfeccionismo", confessam, enrubescidos, essa terrível deformação de caráter.

Querida amiga certa das horas incertas, queridos amigos de minha amiga nesta aconchegante esquina, respondam-me com pureza d´alma: se perfeccionismo é o pior defeito, qual será a melhor qualidade dessas gentes? Afastemo-nos o quanto antes deles, pois que, na comparação, o que será de nós? Seremos reduzidos a uns pobrezitos ciumentos, mesquinhos, apequenados diante de tão auto-proclamada importância. Dói-me a pretensão que acomete as gentes, em todos os setores da vida social.

Dia desses, fui, na companhia de minha boa Vivi, almoçar num restaurante empetecado no Leblon. Era lugar relativamente novo e que há tempos ensaiávamos de ir, pois havia sido alvo de fartos elogios da crítica de gastronomia de O Globo. Muito bem. Para abrir os trabalhos, chamei o garçon e perguntei se havia caipirinha e de quais frutas, pois regressávamos diretamente da praia e o calor aturdia corpos e mentes. Estávamos, pensei, ingênuo que sou, em um país tropical. Em pose solene, o senhor devolveu-me: "Só temos caipirinha de limão ou lima, que aqui é uma casa de vinhos". Discutirás em momentos de abstração da alma, minha cara? Pois eu é que não haveria de. Respirei fundo, até porque nossa intenção já era realmente de prestarmos homenagem ao Baco à hora do repasto: "Traga-nos a Carta" - rendi-me.

Conforme já disse, a temperatura fulminava a pele e os miolos dos cidadãos, mormente dos botafoguenses, que se sagrariam campeões momentos depois. Escolhemos um espumante bem gelado, de modo a refrescar os ânimos. Para ativar as papilas gustativas, pensamos em pedir como entrada um patê com torradinhas e chamamos o emperdigado. "De que é esse patê, gentil homem - indaguei-lhe?" Ah...os critérios da objetividade...com muito esforço, consegui depreender que se tratava de algum composto de miúdos. Na intenção de ajudá-lo (e ajudar-nos), tentei sintetizar: "Patê de fígado, pois não?" O homem iluminou-se: "Sim, patêr de figo...não a fruta...figo, figo, entende?"

Minha boa amiga, fazes uma idéia desta cena? Acaso fazes uma pálida idéia de minha doce Vivi fitando-me com apreensão, temerosa do que pudesse vir a suceder? A presunção garçonística aliada à apreensão com o resultado alvi-negro poderia produzir efeitos bombásticos - deve ter imaginado a dama. Em presença de tão sophisticated lady, outra alternativa não tive que não fosse proclamar, em momento de grande arrebatamento franco-galego-pindorama: "Que venga el patêr de figo!" Na sequência, pratos de pretensão assombrosa (e de preços correspondentes) chegaram à mesa. Ingredientes de má qualidade, pontos de cozimento duvidosíssimos, os recheios das massas sabendo a congelador. Em suma, um resultado de (ausência) de sabores que nos deixou saudosos de um picadinho com arroz branco e ovinho com gema mole sobre este último. Volta o homem de preto: "Gostaram?"

Oh, minha querida, com o Botafogo àquela altura já campeão, vou discutir com o senhor de paletó, ele também um bravo botafoguense, louco para nos largar e ir para General Severiano sorver uns chopes? Fiz hum-hum com a cabeça, tentando ser afável, como é de meu feitio, e já ansiando pela conta, quando ouvimos a sentença épica: "Então, querem uma sobremesa? É na sobremesa que o chef se supera!", declarou em tom triunfal.

Querida Guilhermina, o que um campeonato vencido pelo Botafogo não faz por este teu amigo? E mais não digo, sensibilizado que estou pelas inesperadas manifestações afetuosas de tuas meninas do blog para comigo.

Um abraço terno.
Albuquerque.

Nélida Piñon e eu - em colóquio

Queridos,

A mesma recomendação veio de vários cantos: o Visconde a fez pessoalmente, aqui na Esquina, Ataulfo mandou recado por Dona Flores e Aristides telefonou com a mesma conversa — a entrevista de Nélida Piñon à Rachel Bertol. Uma unanimidade.

Pudera! Cada parágrafo deixa sobre nosso colo e nosso espírito lição e bálsamo. Cada frase é um convite a uma tarde de chá (gelado!, nesses dias de calor insuportável) e ao pensamento como ofício. Deixei-me conduzir pelo bordado mental de Nélida, tão rico quanto delicado; tão simples, que a cada entre vírgulas, é mais precioso. Arcaico, como ela mesma argumenta, ou não poderia ser moderno.

...Você é uma metáfora de si próprio, você não tem uma explicação completa de sua pessoa e da sua realidade...

Assim foi posto o seu convite. Eu, capturada, esquecida das horas, dispensava-lhe meus ouvidos como portas do meu corpo inteiro a sorver-lhe as palavras, como se as pudesse tatuar e carregá-las nos poros e na respiração. Nem refeita da emoção destas primeiras sentenças e já me tomavam o peito as seguintes... por isso a arte é uma necessidade, um apoio, um amparo do ser humano. Não é só deleite, é registro da nossa complexidade...

Um instante, minha prezada senhora, é necessário algum pranto antes de prosseguirmos. Chorar todas as artes roubadas, ou vendidas depois de sucateadas. É preciso que choremos juntas por esta cultura de entretenimento consumida até à obesidade da alienação, carcereira do nada, prisão perpétua do deserto de significantes.

Diante de tudo isso tenho o hábito de pensar... me dá um prazer imenso. É como se eu estivesse reduzindo o meu índice de medo, da morte, da vida...

Ofereceu-me a idéia como se fosse consolo sem, contudo, perceber que também ela apontava desde já, e nos parágrafos seguintes, para a grande solidão que esta escolha determina. Mas não ousei dizer nada... É preciso saber ser só. Ou todos os encontros serão risíveis...

Ela adivinhou, ignorando o meu silêncio, o curso do pensamento como se todas as minhas sinapses estivessem previstas. Não se alterou, não elevou a voz, não buscou nenhuma impostação especial. No mesmo ritmo de fim de tarde, fez-me lembrar antigos conhecimentos antes que amarelassem de vez: É preciso pensar em pleno cotidiano, diante de todas as banalidades. Navegar a partir delas até a possível transcendência. E sem fugir dos princípios da ignorância douta, onde o saber sempre aponta para o que falta saber a mais, ainda, a seguir ou depois... Já havia nos alertado Lacan — o mestre francês — a direção de cura determina qualquer lugar como aquele de onde pode vir a interpretação.

Nesse ponto deu-se entre nós um espaço de novo silêncio. Puro respeito à minha necessidade de digestão. Eu mastigava as palavras, ela aguardava sem pressa e sem solenidade. Ainda haveria de vir o parágrafo das memórias e nossa necessidade delas diante da idéia da própria morte. Revisão? Nélida nos fala mais como patrimônio. Patrimônio e gratidão. Por ter feito o que se quis, por ter perdido a conta de quantas vezes repetiu que sentia muito, mas não ia desistir... (ela, da literatura; mas podemos estender a todas as artes; quiçá a todos os desejos).

Não sem dor, mas livre de ressentimento.

Beijo,
Guilhermina

domingo, 8 de março de 2009

feliz domingo! - por Visconde de Albuquerque

Minha Guilhermina:

Ora, ora, que alegria receber tua ligação justo no dia em que comprometera a mim mesmo retornar a teu blog. E, céus, os dois sob o mesmo pretexto (tua ligação e meu retorno): o dia internacional da mulher. Como se sabe, não há acaso sob o sol. A explicar-me a ausência, notada por ti, poderia desfiar um colar de ocupações impostas pela análise da crise financeira a tomar-me os dias em entrevistas sem fim na seara da Economia. Fora aquelas em que ando a ouvir poetas, cineastas, cantoras e outros anjos para as matérias do coração. Mas, por Jupiter!, nem a débâcle do mercado subprime justifica a rarefação de visitas a um amigo. Voltemos ao ponto.

Para celebrar a simbologia da data, pensei em recomendar a ti (e a teus novos amigos, que tantos há a cercar-te por aqui, folgo em sabê-lo!) a leitura da entrevista de Nélida Piñon publicada no caderno Prosa&Verso do Globo de hoje.

Ah, que festa para os olhos! Que luzes! Diga, minha rainha, quantos nesse mundo podem olhar para trás e ter um relato tão singular de sua própria trajetória no planeta? Mais: quantas mulheres - e mais ainda -, quantas brasileiras podem exibir o privilégio de uma vida em abundância nas sutilezas do espírito, forjada no chão da fertilidade, temperada no sal do pensamento e no mel das palavras? Quanta liberdade, que independência! E que narrativa fresca, limpa, vibrante. Um primor de síntese.

Nélida está lançando seu livro de memórias, "Coração andarilho", leitura imperdível. E por falar em leitura, é com bastante atraso que levo a ti minhas impressões sobre "Os irmãos Karamabloch", que me deste de aniversário. A saga dos Bloch, contada pelo jovem Arnaldo, compõe uma trama capaz de prender a atenção não só de jornalistas, mas das gentes em geral. Pois ali estão todos os ingredientes que adubam um bom romance: paixão, ódio, ciúme, inveja, disputas consanguíneas, amor, generosidade e toda a sorte de contradições tão demasiadamente humanas.

Agora, escrevo-te ao fim da leitura de "Saga lusa", de Adriana Calcanhotto, que ganhei de Isabel Diegues, a cineasta que acaba de abrir uma editora (Cobogó), pela qual foi publicado também "A filosofia de Andy Warhol", que iniciei hoje pela manhã. Muito boa a composição das memórias de Adriana em momento difícil nas terras de Camões.

A propósito do bardo, Adriana observa em bela passagem: "O país que tem como seu dia, o "Dia Um" como eles gostam de chamar, o dia de um poeta? O dia em que morreu Camões é o dia de Camões, sim, mas é o dia de Portugal e das Comunidades portuguesas no mundo tudo, não é lindo isso? É fascinante, comovente. O dia de Portugal não é o dia de um general, de um estrategista, de um descobridor, de um rei, um golpista, um conquistador, um ditador autoritário, um lunático, nem mesmo de um metalúrgico. É o dia de um poeta. Que outro país é assim?". Grande, Calca!

É isso, minha querida. Espero ter contigo amanhã para celebrar teu dia. E, muito em breve, com mais vagar, em torno de uma boa mesa e de um bom vinho, para a conversa calorosa, afinada e afiada de sempre. Livros, livros, livros à mancheia. E deixe que digam, que pensem, que falem. Principalmente, que pensem.

Abraços ternos aos frequentadores desta esquina, mulheres e homens.
Feliz domingo a todos.
Beijo a ti e aos teus em casa.
Do teu,

Visconde.

quarta-feira, 4 de março de 2009

a fórceps - por Aderbal

Sempre que escutava alguém dizer que algo tinha sido difícil de sair como um "bebê a fórceps", compreendia a metáfora, mas, sendo homem, nunca imaginaria vivenciar algo desse porte. Ainda não foi dessa vez, porém, passei por algo semelhante... Vivo um momento de separação, rompimento de um casamento de 9 anos e, como forma de elevar um pouco a auto-estima, matriculei-me numa academia de ginástica. Lá, foi-me solicitado um atestado médico para que eu pudesse praticar as atividades físicas desejáveis. Segui a regra e marquei uma consulta com um clínico geral, nunca dantes visto. No consultório, o doutor me encaminhou para fazer um ECG (eletrocardiograma). Milagrosamente, o plano de saúde não exigia burocracia e na própria clínica onde estava, pude fazê-lo. Foi nesse momento que minha percepção de tirada a fórceps começou. Uma moçoila, simpática e jovem, me passou as orientações de praxe: eu devia retirar a camisa e todos os acessórios tais como, celular, relógio, anéis e ALIANÇA, ops!

Pronto! Ao ouvir esta indicação, senti um calafrio! Apesar do fim do casamento estar sacramentado, ainda usava minha aliança! Olhei para o meu anular, olhei para a enfermeira, que nessa hora já estava ligando o equipamento e me aguardando e tive que confessar. Moça, eu não consigo tirar a aliança!

Em plena era do Ipod, Iphone, Itouch, fiquei mesmo no ai, ai, ai. O que é que eu faço? ... Sem alternativa, pedi sabão. Coloquei meu dedo embaixo daqueles recipientes de sabonete líquido e comecei a lutar contra aquela aliança que, aliada à minha junta mais grossa que o dedo, não saia de jeito nenhum. Lembrei tanto da minha infância quando minha mãe alertava que estalar os dedos era perigoso!! Nunca imaginei que daria razão a ela nesse momento. Aliás, um momento que para mim durou uma eternidade, pois eis que foi preciso muito sabão e risos amarelos, uma vez que a enfermeira, com aqueles eletrodos nas mãos, aguardava pacientemente a retirada da famigerada aliança. Lá estava eu, sem camisa, sem relógio, sem celular, mas com aliança entalada.

Como estava numa clínica, acabei pensando em fazer uma "piada médica" sobre o empréstimo de um fórceps na obstetrícia, mas me contive. Após as minhas fortes e suspiradas contrações, retirei a aliança e me submeti ao ECG. Resta saber se no laudo constará um batimento de coração partido. Ao final do exame, fui até a pia e recoloquei a aliança. Não me perguntem por que!

Aderbal

segunda-feira, 2 de março de 2009

saber mais de mim?



Queridos,

Nesta semana recebi de duas amigas – Roseana e Nélida – respectivamente do “escreve, ou e vê” e do “lector in fabula” este primeiro selo de eleição e convivência. Duas indicações numa só semana!!! Acho que estou orgulhosa... E agradeço o reconhecimento e o carinho.


Vamos ao cumprimento das regras, para multiplicar este sorriso por aí:
  1. Publicar o link da pessoa que o nomeou
  2. Escrever estas regras no blog
  3. Contar seis(!) coisas aleatórias sobre você
  4. Indicar mais seis pessoas e colocar os respectivos links no final do post
  5. Avisar as pessoas que indicou, deixando um comentário em seus blogs
  6. Deixar os indicados saberem quando publicar o seu post

Agora, o mais difícil – cumprir a 3ª regra:

  1. Sou uma pessoa transtornada. Montanhas e abismos me são mais íntimos que planícies.
  2. Não gosto de nhenhenhe... para mim, mesmo o carinho é feito de atitudes.
  3. Tenho profundo respeito e amor à palavra. Reconheço sua capacidade tanto de gerar equívoco quanto de retificá-lo.
  4. Doce? Enjoa. Exceção para coca-cola, chocolate amargo, torta de limão... E café! Em caneca ou xícara grande, mas por favor, só com duas gotinhas.
  5. Atitudes invasoras, tirania, alienação, falta de reconhecimento e posicionamento preconceituoso são abomináveis.
  6. Sou fascinada por processos humanos e uma admiradora dos que se encaram. Desconfio sempre dos bonzinhos.

Por fim, minhas indicações:

  1. topografia de interesses
  1. e agora, Maria?
  2. intersemiótica
  3. aeronauta
  4. enredos e tramas
  5. banalidades indispensáveis


Agora é com vocês.

Beijo,

Guilhermina