
Girassol Susanna,
Quando li teu comentário sobre Leila Pinheiro, abri meu coração, tremeu o chão, eu vi que era feliz. Por amar tanto a música, ouço cada vez menos música, e isso já vem de anos. Desde sempre escutando música aos borbotões e, mais tarde, tendo feito isso também por questão profissional durante um longo período, chegou uma hora em que, sinceramente, chegou uma hora. Há música em todos os lugares e o tempo todo. É uma tal saturação! Música na loja, na sala de espera do consultório, no elevador, no carro, no hotel, no escritório, na praia, no restaurante, na casa das gentes, como se o mundo corresse o risco de entrar em colapso fatal mediante uma momentânea zeração de decibéis.
Quando alguém me conta, com os olhos brilhando, que agora tem uma engenhoca capaz de armazenar 115 milhões de músicas, não consigo nem disfarçar minha decepção com a (em tese) boa nova.Nas caminhadas por essa estonteante orla, dá-me gastura ver as gentes a passarem sôfregas com um fonezinho embutido na orelha. Não sei vocês, mas este mequetrefe cheio de rabugices anseia por silêncio como um astronauta delira pela lua. Os segundos que antecedem minha subida em um táxi são acompanhados de terríveis expectativas. Outro dia, a própria Leila - sim, a Pinheiro - disse que pede para desligarem o rádio assim que entra em carros alheios. Oh, minha alma encheu-se de júbilo: eu não estava só nesse mundo de sons intermitentes. Bem ao contrário, vi-me na mais fina companhia. Logo uma cantora! E logo ela!
Eu disse Leila? Pois eis um exemplo perfeito de entendimento da música. Afinação, precisão, limpeza. E pausas. Muitas pausas. Que mesmo a música não prescinde de seus silêncios, suas respirações. Um instrumentista como Yamandu, com todo o respeito ao virtuose, deixa-me atordoado ao fim de uma única audição. É uma tal profusão de notas em cada mísera frase musical que me quedo zonzo, fatigado, abatido. Parece querer enfiar todos os acordes do universo em uma única sequência harmônica. O cara sola na pausa. Já o violão de Guinga, o piano de Jobim, o trumpete de Chet Baker, aquela justeza...Nada sobra, tudo eleva. Aí, sim, vem a vontade de parar tudo para que esses sons vibrem em plenitude.
Além de recomendar o blog da querida Pinheiro (em http://www2.uol.com.br/leilapinheiro), onde ela posta dicas culturais bacanas, que evidenciam sua persona sofisticada, deixo-te - e aos demais, ça va sans dire - com 3 sugestões para massagear nossos combalidos tímpanos:
- A própria Leila em Onde Deus possa me ouvir (Vanderlee)
http://app.radio.musica.uol.com.br/radiouol/player/frameset.php?opcao=umamusica&nomeplaylist=008828-6_13<@>Nos_Horizontes_do_Mundo<@>Onde_Deus_Possa_me_Ouvir<@>Leila_Pinheiro_<@>0350<@>Leila_Pinheiro_<@>Biscoito_Fino<@>
- Esse escândalo que é Are you going with me, com o guitarrista Pet Metheny e orquestra em concerto em Lisboa.
http://www.youtube.com/watch?v=avwXET5ippQ&feature=related
Três (Marina Lima e Antonio Cícero), na voz de Adriana Calcanhotto - A parceria entre irmãos em grandíssima forma.
http://app.radio.musica.uol.com.br/radiouol/player/frameset.php?opcao=umamusica&nomeplaylist=010167-9_03<@>Maré<@>Três<@>Adriana_Calcanhotto<@>0350<@>Adriana_Calcanhotto<@>Sony_-_BMG<@>
Abraços enternecidos.
Catavento Albuquerque.





