domingo, 23 de agosto de 2009

o procedimento é pegar um táxi até Miriam - por Visconde de Albuquerque

Guilhermina, meu camafeu, alvíssaras!

Finalmente, saíste daquele silêncio que não te pertencia. De teu estupendo texto, ficou martelando-me o trecho: "É absolutamente necessário que se tenha medo de perdê-lo (o amor), mesmo sabendo antecipadamente que isto é inevitável". Lembrei no ato de Sandra Pêra, queridíssima e a quem muito aprecio os pensamentos frenéticos, fitando-me profundamente ao dizer: "Não tenha medo de perder (o amor). Quem tem medo de perder, perde". Oh, urgia ganhar a rua e refrescar os tórridos miolos. Que fazer?

Fechei a padaria mais cedo para sair com as crianças. O moleque, de 8 anos, e a afilhada, de 1. Fomos no restaurante preferido...dele. Céus, nessa idade e já com point gastronômico. E de muito bom gosto, por sinal. Levei presente para todos: para ele (aparelho de som), para a mãe dele (CD do Toni Platão), para a baby (uma casinha de pelúcia, de onde sai um cachorrinho), para a mãe dela, minha comadre (DVD do Djavan). Contudo, fui eu quem ganhou o maior presente. Para tudo existe Mastercard, mas estar com quem amamos, encerra clichê, bem sei, é sem dúvida irreembolsável.

Enquanto sorvia o prosecco gelado, observava aqueles dois serezinhos. Um, a essa pequena altura do championchip, já portador de notebook (com o qual eu o havia presenteado ano passado) e celular, que acabara de ganhar (não de mim). Provoquei-o: "Vais me ligar?" Ele: "Claro" - mexeu os dedinhos e...meu celular tocou. Ou seja, ele já havia armazenado meu número na engenhoca. Disse-lhe: mas o senhor está me saindo um verdadeiro homem de negócios! Ele riu e, como bom leonino, deve ter se achado o próprio. Fiz questão que ele tivesse seu own computer, não para entretê-lo com joguinhos. Mas sim para que, em paralelo à moda antiga, usasse-o como nós próprios houvéramos feito com as caudalosas enciclopédias analógicas de antanho. Para pesquisas e trabalhos no colégio. Ele que, com 5 anos, logo após eu me separar de sua mãe, ao lhe perguntar como andava na escola, veio com essa: "eu brinco, me divirto, mas ensinar que é bom, nada." Está bom para ti? E lá ia ele, degustando as comidinhas deliciosas e operando o aparelho com tal desenvoltura que constrangia o nível máximo de tecnologia que domino na coisa: mandar uns torpedilhos. Até que, em meio a observações sobre os itens do cardápio da casa , - que se diga, não muito "normal" para o gosto médio de uma criança -, mandou um "procedimento" no meio da frase. Por Camões, "procedimento"? Lembrei-me de quando ele tinha 3 e perguntou-me o que era "experiência". Valei-me, protetor dos dicionários! Foi quando minha comadre contou que a única palavra que a bebê fala inteira é....mamãe? vovó? Não, prezados: "táxi". Pano rapidíssimo.

Meditei: se um com 8, está de note e celular, o que essa pirralha vai ganhar de presente na idade dele??? Disquei (disquei?) imediatamente para Miriam Leitão, minha nova e arrebatadora paixão (sem cenas de ciúmes, Waldvogel, if you please!), buscando aconselhar-me através de sua visão macrossocioeconômica e prognóstica do universo. Disparou-me a gênia: "Visconde, anacrônico colega, sê romântico, como te aprouver. Mas, tanto quanto possível, moderniza-te, rapaz. Vence a condição de camarada contemporâneo das fundações da Sé de Braga. Ainda causa-te espécie a frequência modulada, os mistérios impenetráveis de um singelo interfone ou até mesmo a ação de um mero dimmer na sala de estar, meu bom homem. Tudo te espanta, tudo pões na conta de mágica, de enigma indecifrável. Qué te pasa? Apruma-te, prepara-te. E, sobretudo, forra esses bolsos, companheiro. Com o que esperas presentear teu anjinho aos 8? Meias três quartos? Pega-varetas? A bisneta da Barbie? Francamente, meu amigo. Pensa em chips subcutâneos que ensinem a tocar instrumentos, como sonha Cora. Em roupas autolimpantes e passantes. Em exposições permanentes de Van Gogh no MAM. Em emagrecer sem me perguntar como. Enquanto choras pitangas como um bezerro desmamado com Roberto numa poltrona - que maçante! -, o mundo roda lá fora, pai de Matusalém. Deixa para trás o tempo em que batucavas num 286 movido a lenha, tio-avô de Fred Flintstone. Mas, acima de tudo, pensa alto, bem alto. Dá a essa brasileirinha - e ao brasileirinho - um Parlamento limpo. Roga aos céus não ter que indefinidamente mostrar-lhes onde estão os valores, a moral e a ética, pois que até lá seus representantes no governo estarão esterilizados e a decência será algo que nunca deveria ter deixado de ser o que é: crucial. Peleja para que não precises convencê-los exaustivamente de que honestidade é obrigação, e não exceção e virtude a merecer aplausos e condecorações. E chega que preciso desligar, para fechar mais uma de minhas colunas que tanto te vêm impressionando, por simplesmente falar do óbvio. Estou, com elas, tentando ajudar-te a presentear futuramente os teus. E tu, cidadão, o que tens feito?"

Assim, desligamos. Eu, mais apaixonado ainda por ela. Sim, és toda razão, colunista: preciso levantar da poltrona confortável. Essa pequena magrela de Caratinga, que coisa...Como tu, Guilhermina, também eu sonho com avenidas povoadas de reações ao tenebroso espetáculo em que diariamente homens enlameados até o talo autoproclamam ética e espírito público com uma desfaçatez, um desassombro e um linguajar torpe que, espero, essas crianças nunca precisem conhecer. Essa corja, essa malta que de nada se envergonha, quanto lixo! Sonho em rachar a canalha, amadurecendo a campanha verde de Marina Silva. Não vai levar, posto que é uma sem-máquina. Mas partirá a candidatura oficial. Que a campanha sustentável torne a outra insustentável. Aí, é pau no segundo turno. Pelo bom futuro dos fedelhos. Os meus, os seus e os nossos. Retribuo com amor o teu beijo, conquanto me deixas um tanto nervoso. E que nossos cônjuges não nos leiam. Em nos lendo, relevem-nos a travessura. Em nos relevando a travessura, liberem-nos para mais. A propósito, agradeço o envio da foto de meu calçado tirada em alegre noite de festa ao vosso lado. Julguei que daria uma perfeita ilustração para esta minha verborragia contumaz, ou seja, nada a ver com coisa alguma.

Mientras, vamos a alguns refrigérios para a alma, belezas no combate a tanta feiúra:

- A linda canção "Amores Possíveis", com Paulinho Moska: http://app.radio.musica.uol.com.br/radiouol/player/frameset.php?opcao=umamusica&nomeplaylist=005508-6_02<@>Amores_Possíveis<@>Amores_Possíveis<@>Vários_Artistas<@>0220<@>Paulinho_Moska<@>UNIVERSAL<@>
- O vídeo do incrível contra-tenor e barítono alemão Klaus Nomi: http://www.youtube.com/watch?v=yuSrsGzhD9U
- O vídeo da bela "Pérolas aos poucos", de José Miguel Wisnik, na voz de Ná Ozzetti: http://www.youtube.com/watch?v=VhSo-FX-x5M&eurl=http%3A%2F%2Fletras%2Eterra%2Ecom%2Ebr%2Fna%2Dozzetti%2F286815%2F&feature=player_embedded
- O áudio de "Entreolhares", do novo CD de Ana Carolina: http://anacarolina.uol.com.br/
- O aúdio de "Prima do ciúme", do novo CD de Antonio Villeroy: http://www.antoniovilleroy.com/obra_aberta/disco_novo-prima_do_ciume.php
- O site do canadense Leonard Cohen: http://www.leonardcohen.com

domingo, 16 de agosto de 2009

para viscondes e amigos

Meu Visconde, meu amado;

Você e essa sua ironia fina e sutil capaz de fazer as mulheres suspirarem, ávidas pelos galanteios que lhe são tão próprios. Quanto a mim, vejo-te com o indecifrável sorriso no canto da boca a deixar-me dúvidas. E ainda sobre estas, também não estou certa se me aflijo mais com a incerteza que me ronda quanto as tuas lisonjeiras palavras ou quanto a mim mesma. De todo modo, não me parece correto atribuir-me essa capacidade de acalmar as almas transtornadas, mesmo aquelas que se manifestam em resmungos. Além do mais, justo você, meu caro, como poucos, é testemunha de que não sou de paz. Ah, não! Muito antes pelo contrário, são as tormentas que me fascinam, são as revoluções.

As que aconteciam nas avenidas estudantis dos idos 68, cheias de sonhos, de ideais, de censuras a provocar a criatividade e a beleza das metáforas... Ah, como queria mais disto. Mas, não é só com saudade que visito estas cenas. A saudade faz tudo morar no passado e o sentimento que me assola traz a urgência a reboque, quero fazer presente a intensidade no que vivo hoje, tenho necessidade de matar a fome de verdade emocional.

Não sei em qual momento eu deveria trocar o verbo amadurecer pelo envelhecer. Não sei sequer se já passei da hora e fico por aí a mercê da galhofa alheia. Mas sei, isso sim, que a gratuidade de tudo que a vida tem, típica fantasia da juventude, já se foi. O sucesso, a riqueza, o bem-estar, a saúde, a beleza da forma, a alegria, o crédito, o reconhecimento, a realização e o que mais você quiser supor na vida é consequência de trabalho, insistência, teimosia mesmo. E alguma sorte... que como diz meu cunhado, os craques tem que ter sorte.

Desta feita, não me desespero mais na tentativa em vão de encontrar quem me faça feliz. Quero quem me faça companhia na felicidade que eu possa encontrar por mim e, já que é inevitável, também nos tempos, às vezes longos, de frustração e dor.

Aliás, dor é uma palavra que as pessoas têm horror, mesmo sabendo que não há economia que nos previna, e não há prevenção que nos proteja dela. Há de vir como a estiagem e a chuva sempre chegam. Nossa questão passa a ser o desenvolvimento de recursos, então. E não há recurso maior que o encontro amoroso. Intenso e verdadeiro, mas também cálido e apaziguador. Gratuito? Jamais. Antes, é preciso que seja caro, dispendioso de tempo, de energia, de investimento. Nada ao acaso, quase tudo conquista. É preciso que se tenha consciência do amor. E absolutamente necessário que se tenha medo de perdê-lo (mesmo sabendo antecipadamente que isto é inevitável). Mais imprescindível ainda, no entanto, é o medo de abandonar-se. Não é o outro que nos impede, que nos aprisiona, que nos torna dependentes. Somos nós que o fazemos por nossa própria incompetência. O outro, ou o amor, nos serve apenas como pretexto. Um mau pretexto. Um mau uso.

Sobre a liberdade, aquela para qual nunca é uma palavra que não existe, tomemo-la pela mão. Não há amarra mais singela posto que desprovida de força.

Meu amigo, as revoluções acontecem também no silêncio. Há na insatisfação uma força motriz de transformação: Um dedo apontado para a necessidade de fazer de outro modo, de rever o estabelecido, de sair da repetição do que nos leva ao mesmo destino.

É por aí que tenho andado, entre revoluções, reviravoltas e silêncios... Um tanto longos, é verdade, mas necessários, posto que neles me escuto com eco, e sem interferências.

Só mais uma coisa: saudade é testemunho, de que vida(!) houve. Quero guardá-la toda, como coisa minha, daquelas que não abro mão.

Beijo-lhe, desta vez na boca, por exigir de novo a minha voz. Para dizer-te, disse-me antes. Muito obrigada.
Guilhermina

terça-feira, 4 de agosto de 2009

como é grande o meu amor por você - por Visconde de Albuquerque

Rainha, minha incandescente amiga,

Teu telefonema hoje encheu-me de quentura e reviravoltas mentais. Coloquei uma plaquinha de volto logo na quitanda e fui caminhar na praia. Ato contínuo, vi-me a tecer conversações contigo, sempre animado e ávido a escutar-te, com invariavelmente tanta luz. Apaixona-me, por impressionante, teu universo em que nada é gratuito, bóia na superfície, patina a esmo. Chegas a mim como um invencível estopim a explodir memórias, sentidos, raciocínios. És uma brasa, mora! Desculpe-me a expressão popular, querida, mas é que escrevo, por mais que incrível pareça, ainda sob o impacto violentíssimo que foi o show de Roberto. Duda, a meu lado, entre incrédula, assustada e compadecida, olhava-me de esguelha, como a buscar entender o que se passava no imo de seu parceiro àquela noite. Pois que eu, copiosamente, chorava. A ponto de, diante de tantas emoções, passar-te um torpedo, amiga, procurando dividir contigo momentos de tão forte supressão da consciência, em que tudo era transbordamento.

Quando Erasmo começou a cantar, o Rei chorou. Erasmo chorou. Fiz o que? O que era mister: acompanhei a ambos. Éramos Erasmo. O jantar que Duda tão amavelmente trouxera, tal e qual o café da manhã do cantor de Cachoeiro, esfriava na mesa. Como interromper aquele desfilar de redemoinhos sensitivos? Não queria que o assado se transmutasse em caldo fumegante inundado pelas lágrimas em abundância.

Roberto, o Rei de tantos, do Brasil. E meu também. Dirás: mas e Buarque, seu nobre de meia tigela, aristocrata decadente, comprador barato de títulos e brasões forjados em falsificações rudimentares? Onde a fidalguia numa criatura que deita prantos à audição dos primeiros acordes de "Você" (com esta, na voz de Bethânia, já fizera poças no Canecão dois anos antes). Que vai dormir (consciente) embalado pelos noturnos de Chopin, mas que sonha mesmo (subconsciente) é com as boas e velhas canções do cavaleiro da Urca? À maneira de Dani, perdoa, querida, esse nobre vagabundo.

Mas, cáspite, do cordial filho de Sergio, o que falar? Acontece que as emoções de Francisco têm sempre porta-vozes, personagens, escudos. Mesmo Caetano e Gil se expõem, muito, em relação as suas vidas pessoais. Mas Roberto, esse é todo exposição. Tudo acontece na primeira pessoa. É ele, sempre, a falar dele. Do drama do acidente, do drama do filho, das relações com a mãe, o pai, com o melhor amigo. Da mulher que mais amou. Suas relações religiosas. Que artista, de primeira linha, se coloca como ele? Irmãos, é preciso coragem. Não há aquela máxima de que quem quer falar ao mundo que fale de seu quintal?

E Roberto tem sido incansável na abordagem de seu próprio pátio, sobretudo seus jardins de inverno e, mais sobretudo ainda, seus sítios de amores passionais. Muito me fascina esse campo das relações a dois. Quando eu era jovem e tolo (e isso se perde na noite dos tempos, embora a segunda característica continue valendo), não conseguia ver graça nas coisas do mundo na ausência de uma interlocutora amorosa. A visão de um entardecer, uma viagem, uma comida diferente, um resultado importante no trabalho, tudo isso se enfraquecia em valor se não merecesse a chancela de uma alma enamorada. Era eu quase que um terceiro autor de Inútil Paisagem (Tom Jobim & Aloysio de Oliveira). Ah, o bendito passar das horas, que não há só de encher-nos de rugas e cabelos brancos. Ao modo de um antijornalista, que nem sequer sabe o seu próprio lead, ignoro como, quando, onde ou porque essa percepção modificou-se. Mudei eu. Roberto, não. Porque só muda quem precisa mudar.

Hoje, obstino-me, com todas os meus dínamos, a explorar meus jardins de inverno, outono, primavera, verão. Dedico-me a promover excursões permanentes ao meu meio rural, zonas interiores, ambientes inóspitos, regiões desérticas, fronteiras glaciais, paisagens camufladas. E quão trabalhosas são essas expedições! Que labor o exercício da própria construção. Quanta solidão e tijolos nessa procura. Quisera ser compositor, para refazer em canções lindas as pegadas antigas e frescas de tantas viagens. E, rainha - não sei bem porque (muitos risos) -, é esta uma agenda que tanto me transpõe a ti. Eu tenho tanto pra lhe falar, e é com as palavras do Rei que sei dizer: Como é grande o meu amor por você! Por me inspirar, me motivar nessa busca, que é o que realmente interessa nessa vida. Sem você, meu mundo é diferente. Estou tão feliz!

Quanto a "Você", está em
http://www.youtube.com/watch?v=4PE1FWg3gJY

Abraço-te, com tanta saudade.
Teu,
Albuquerque.

terça-feira, 28 de julho de 2009

já era hora – por João Lira


Finalmente venho aqui contar-lhes coisas boas, sem reclamar!

Até domingo estava de férias na casa de meus avós, uma das poucas férias com meu pai já que ele esteve sempre trabalhando e suas férias eram de uma semana, uma vez por ano. Agora ficou diferente, ao voltarmos da Venezuela, país que moramos por causa do trabalho do meu pai, ele ficou desempregado e por enquanto trabalha por conta própria.


Está sendo muito difícil pois o salário dele não é garantido no fim do mês, porém de outra perspectiva, vemos que ganhamos muito em questão de valores, princípios e atitudes. Aprendemos o verdadeiro valor do dinheiro e do sacrifício para consegui-lo, aprendemos a consumir conscientemente, descobrimos realmente o que é necessário ou supérfluo, passamos a viver com menos da metade do que precisávamos antes. Penamos no começo, mas aprendemos a ser felizes.


Não é só porque conseguimos a felicidade (ela estando dentro de cada um basta encontrá-la) que paramos no tempo, pelo contrário, como dito antes ganhamos muito e agora usamos isso para nosso cotidiano. Descobrimos um novo mundo e por incrível que pareça, não foi o dinheiro que proporcionou isso para nós, foi a falta dele.


Minha família está muito unida agora. Essa falência nos juntou numa casa menor, televisão menor, panela menor, mas criamos um amor maior. Embora unidos não perdemos a noção de quanto vale um Real, sabemos que ainda precisamos de dinheiro para supermercado e outras coisas, ainda mais com uma família grande assim: pai, mãe e quatro filhos.


E felizmente isso vai mudar. Não quer dizer que voltaremos a torrar dinheiro e comprar qualquer coisa que virmos pela frente, mas sim que meu pai voltará a ter um emprego, nós continuaremos felizes e dessa vez economizando.


Um beijo do João

sábado, 18 de julho de 2009

libertas que será também - por Visconde de Albuquerque

Rainha, meu grande bem,

Por que cargas d´água houveste tu de mencionar bebericações e elucubrações nossas em fins de tarde? Pois a decisão está tomada em caráter irreversível. Mudo-me em breve para qualquer outro CEP não iniciado por 2 (a dúvida recai ainda entre Patos de Minas e Varre-e-Sai). Só assim, restar-me-ão esperanças de sentar-me diante de ti novamente. De meu observatório, bem te vejo a borboletear por aí com as garotas desta esquina, habitantes de municípios outros. Guilhermina, Guilhermina...por ventura desconheces que ciúme de homem é coisa infinitamente mais séria que o mesmíssimo sentimento na mulher? Se sabes, finges ignorar, perdendo levianamente a noção do perigo. Um homem ciumento não responde por seus atos.

Martha Medeiros registra que o conjunto formado por duas amigas, uma tarde livre e litros de vinho branco é o paraíso. Constituiria muita petulância de minha parte afirmar que dois amigos, uma tarde livre e litros do que quer que seja possam igualmente sê-lo?

No tempo em que nos encontrávamos amiúde, aquele ente atormentado e claudicante que sou foi cedendo, pouco a pouco, a um projeto de cavalheiro mais ajustado, com algum conceito de juízo. Quase um ser humano normal, apto a viver em sociedade. Mas, qual! A distância que teima em afastar nosotros já se faz sentir em toda a sua carga dramática. Com celeridade, retorno à deplorável esfera habitual de rabugices e resmungos. Bufo pelos cantos em lapsos de impaciência, rosno para equivocadas idéias de entretenimento, inquietam-me as conversas. Grupo de mais de 2 aflige-me. E, confesso-te, exaurem-me as próprias idiossincrasias.

Observo os casais a minha volta e entedio-me. Nunca noto uma correlação de forças, as individualidades em sua inteireza, com seus interesses pessoais, tratando de polir seus universos interiores, lapidar suas buscas e investigações. Rendo-me, por incontestável, à idéia de que sou francamente um tipo anômalo, em que pese não ser um celibatário. Mas, preciso ficar só, caminhar na praia só. Preciso ler, escrever. Preciso de silêncios. Ao ler Mutações, de Liv Ullmann, em era mesozóica, meu cérebro iluminou-se. Dizia a estupenda atriz que Bergman, com quem estava então casada, era capaz de passar dias e dias enfurnado em seu estúdio sem aparecer, digamos, na casa em si (claro, moravam em castelo norueguês, se não me falha). Ou seja, para ela. Não lembro agora se o tom era de reclamação ou de simples constatação.

Na hora, pensei: êi, este sou eu! Mas como? Ele, um senhor nórdico, escandinavo, cineasta consagrado. Eu, um jovenzinho latino, brasileiro, estudante. Onde tal identificação? O fato é que ambos formaram uma dupla arrepiante no mundo das telas. Aquele ser, aquele diretor, que tanto precisava de isolamento e introspecção, inscreveu com a própria mulher uma das mais belas páginas no cinema mundial, em filmes impregnados da mais pura humanidade, sensibilidade, delicadeza, em sua espiral profunda, torta e universal. Que casal, hein?

Por analogia, vem-me de imediato a palavra "companheirismo". O que é mais legal em tua relação com fulano (a)? Ninguém titubeia: Ah, o "companheirismo". Esse conceito tão lindo dentro da aventura humana é de tal ordem desbaratado que se aplica a qualquer situação. Companheirismo, na débil - e muito provavelmente equivocada - definição albuquerquiana, nada mais é do que o que se faz movido pelo coração. Nunca pela obrigação, tão somente pelo comodismo de querer livrar-se de um aborrecimento. Tão delicada a linha que separa a entrega da dependência.

Quem de vocês conhece um casal realmente bacana, investido na realização de suas trajetórias individuais, pessoais e profissionais, em que o sentido do acasalamento seja única e fundamentalmente o querer ficar junto? Em que um não seja o tirano, o algoz do outro? O usurpador de suas energias? O desestruturador de seus desejos mais profundos? O desorganizador de sua beleza íntima? A bengala? O pijama? O chinelo? Vejo parentes, irmãos, mães e filhos, qualquer coisa, menos casais, numa espécie de desbalanceamento que dói.

Conheceis, por acaso, um casal que diga: o que nos prende é a nossa liberdade? ("E no que diz respeito à liberdade, nunca é uma palavra que não existe"). Pois façam-me a fineza de indicar os nomes de seus integrantes. Faz-se mister entrevistá-los. Entrarão na pauta que preparo sobre o mico leão dourado.

Céus, quanta radicalidade e intolerância no que escrevo. Oh, amada, Guilhermina, avisei-te sobre as sequelas de tua ausência em meus dias. É nisso que dá. E como é lindo teu texto. Recorto: "Isso acontece de tal forma que é necessário que façamos a travessia do medo". Hum...Tem vinho branco aí?

Te abraço com tanto calor, querida.

PS 1 - Duda, renovas-me, meu grande amor sincero.
PS 2 - Só mesmo ouvindo "Autonomia", de Cartola.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

nuvens e beija-flores – por Nine

Pensamentos como nuvens correndo no céu, mudando de forma e lugar, me ocupam a mente. Vão da tristeza e solidão do vampiro do klaus Kinski em Nosferatu, que um comentário do Marcelo Coelho no blog dele me fez lembrar, até a: tenho horror desses calores e frios que se alternam, graças a menopower. Logo em seguida, como cabritos, pulam para uma imagem do livro "A última colheita", de John Grisham, o neto e avo na velha pickup na nacional 135. E esse passeio mental me leva a: quando será que estarei num carro, com um homem, numa estrada, escutando música, olhando a paisagem e, às vezes, conversando e ou cantando juntos, como fazia com o meu ex? Será que farei isso ainda alguma vez? Gostava tanto de pegar estradas dentro e fora do Brasil com ele... Sinto falta da intimidade que nos tínhamos e que não sei se terei de novo com outro...

Ai lá vai a lebre do meu pensamento para minha prima querida e preferida, que está com colesterol alto, gastrite, stress causado por vários motivos, mas principalmente por um chefe sádico e o ocaso de um casamento de mais de 25 anos que ela quer terminar sem brigas, sem stress... ela também acredita no poder dos cristais, mas eu a amo mesmo assim! Olho distraída para meus lençóis, escrevendo na cama, e lembro da filha do meio me perguntando ontem onde comprar lençóis de algodão bons, bonitos e baratos, penso no post do blog "ela fala e sai andando" onde a Elisa de lá, conta que a mãe dela pensa que ela é o Google. Aqui em casa é o contrario, meus filhos é que pensam que eu sou...

Mãe, onde compro lençóis assim assado?
Vai na 25.
Como tiro mancha de vinho tinto?
Derrame vinho branco em cima, desaparece na hora!
Como reavivo couro em sapatos e bolsas?
Passe casca de banana, deixe secar bem e escove, ficam como novos!
Mármore sem vida?
Limão com bastante sal, enxaguar em seguida!

Sou uma fonte de sabedoria doméstica e vida prática para eles, queria ter uma fonte de sabedoria emocional... E lá vamos nós, me, myself and I, na minha mente jaguar preto pensando em como meu amigo L., que eu encontrei ontem numa cafeteria, se deixou envolver pela filhagrávidamaridofilhopequeno, que voltou dos EUA direto para casa dele, perturbando a vida dele e sem data de saída, quando eles tem um apt em SP que agora está pequeno para a família dela? E o L. com isso? Me contou que não sabe o que fazer, que esta estressado com choro de criança pequena, com coisas espalhadas pela casa, televisão ligada o dia inteiro nos coelhinhos tolinhos, Bob Esponja e o insuportável dinossauro roxo! Diga NÃO L.! Entra esse outro pensamento intrometido e arrogante, não percebendo que muitas pessoas tem dificuldade de dizer NAO! é só abrir a boca e articular N-Ã-O! Mas não é assim para todo mundo, sua insensível! Lembro da minha amiga R. que diz para amigos e amigas que os amam, que os adoram, mas não diz para os amores. O amor diz: Neném estou com saudades! E ela: é Neném? Não sei como o "neném" não sapateia e se joga no chão! Falo facilmente eu te amo, estou com saudades, me desculpe, me perdoe. Mas estou só, ela não! Será que eu não tenho uma comporta que deveria ter? Sou esquisita, estranha em não conter meus pensamentos, meus sentimentos? Dentro da minha cabeça deveria existir um nano-censor? Ele ficaria sentadinho atrás de uma nano-mesinha de camisa estilo mórmon, de gravata preta, com óculos de aros pretos cerceando tudo... Coitadinho, ia ter um trabalhão!! Ah, queria saber desenhar o nano-censor chamado Orestes que viveria dentro da minha cabeça que só comeria enlatados e miojo, uma vida tão monótona de chorar! Toda vida de censor deve ser de chorar...

Pego o superelevador que tem na minha cabeça e vou até o andar: Bispo do Rosário. Ele escutava vozes que o mandavam fazer as artes dele. Bordados lindíssimos, certas roupas e estandartes bordados por ele parecem medievais. Ele parecia ter fixações por nomes. Esquizofrênicos falam com Deus, Jesus, marcam encontro com divindades e demônios na sala ao lado. O Sr Bispo, como ele gostava de ser chamado, nos tempos mais heavy metal da Juliano Moreira, pedia aos enfermeiros para o trancafiarem que ele ia "se transformar”. Era quando as vozes iam chegar... Mau passant também previu a própria loucura. Numa carta a um amigo ele escreveu contando que iria se casar, não porque estivesse apaixonado, mas para não ficar só. Estava percebendo a loucura chegar e achou que assim a exorcizaria. Ledo engano, a loucura chegou antes do casamento. Solidão apavora, como diz uma outra canção. O Sr. Bispo do Rosário disse que os loucos são como os beija flores, batem asas mas não saem do lugar e vivem a 20 metros do chão... Meus pensamentos deram uma freada brusca, ai comecei a chorar...

bjs Minha Rainha!
Nine de Azevedo

segunda-feira, 13 de julho de 2009

o amor quando acontece

Meu Visconde, meu amigo,

Quanto tempo! Que saudade!

O espaço que minha memória guarda para aqueles dias em que bebericávamos à tardinha enquanto massageávamos nossos egos magoados, ou ainda, acariciávamos os corpos feridos e a almas ainda ardendo, sem destino nem direção... Naquele espaço ergui uma estátua, uma homenagem póstuma aos que ocuparam nossas vidas mais, e talvez melhor, do que nós mesmos...

Não és o primeiro a me dizer que há um valor para a vida que só conhece quem amou com toda a entrega, com sofreguidão, com desespero, ainda que disfarçado, que contido por rédeas de bom senso e de boa educação. Não discuto isso. Fazê-lo seria tão somente um exercício de hipocrisia e, você sabe, meia verdade é uma mentira inteira. Não. Definitivamente, não tenho o que argumentar sobre essa coisa toda. Nem prescindir. Nem, ainda, que lamentar seu fim. Hoje, depois da passagem de tantos dias, de dores outras, e de vazios imensos, já posso ver que há lição na perda. (E que perda!) Assim, portanto, deve ser lição das grandes, das mais importantes, daquelas que não se pode passar sem, sob pena de estacionar a vida num meio-fio e ali esquecê-la como um indigente.

Vira e mexe, releio minhas cicatrizes e traduzo mais uma sílaba de seus hieróglifos. Algumas respostas devem ainda dormir lá como numa câmara mortuária se guardavam os pertences mais queridos que foram animados por aquele que ali jaz. Sim, é quase uma reverência, você deve estar pensando... Mórbido? Meu querido, nefasto seria deixar a vida esvair-se por ali, deitando-a no parapeito pra ver a banda passar.

Mas tudo isso são favas contadas. O que ressoa de sua última presença e palavras por esses lados é a idéia de que tais encontros, dotados desta intensidade amorosa, não se repetem. Francamente meu amigo! Não me venha com tal golpe de capoeira. Até parece aquela história de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar! Crendice, meu caro, crendice. Estou cada vez mais convencida de que tal possibilidade amorosa, uma vez conhecida, nunca mais se faz por menos. Sua passagem ensina um estado de existência, uma forma de conexão no mundo, com o mundo. Isso acontece de tal forma que é necessário que façamos a travessia do medo.

Busca incessante. Eis um estado que se inaugura. Haverá como percorrê-lo sem medo? Não creio possível. E no reconhecimento de cada encontro, é de novo o medo quem comparece, desta vez pela consciência da perda inevitável. Mas não é isso mesmo: há como visitar a antecipação das pequenas mortes sem temor? Essa não é nossa condição humana, imposta pela finitude?

Será, meu querido, que a grande lição, esta tão difícil, está em aprender uma torção do olhar? Onde sempre nos pareceu que era o objeto do nosso amor o que dava sentido a tudo, a verdade que se escondia atrás dele era o próprio amor como modo de permanência? Amor que só pode ser pleno por ter sua Causa dirigida sempre ao outro e não às mesquinharias das nossas vontades, dos nossos domínios, dos nossos poderes?

Caminho nesta investigação. Às vezes, pareço avançar léguas e, no entanto, no dia seguinte, acordo aspirada pelo mesmo redemoinho, ansiando um corpo querido como se nele habitasse o segredo todo, a resposta inteira. Acaricia-me então o fato de que são necessárias poucas horas para que experimente o esvaecer desta urgência, deste me perder por recôncavos que não levam longe. Então apanho de volta meu amor e faço dele o meu altar, lugar da minha súplica, da minha devoção e da minha possibilidade.

Se lamento alguma coisa? Sim, o tempo em que deixei o amor em abandono, na cela dos condenados à prisão perpétua, como se fosse ele o algoz. Que tolice, quanta bobagem! Que desperdício o meu. Salve o ditado popular: antes tarde do que nunca. E no que diz respeito à liberdade, nunca é uma palavra que não existe.

Foi muito bom te ver. Até o próximo brinde,
Guilhermina