segunda-feira, 15 de junho de 2009

onde estiveste de noite? - por Visconde de Albuquerque

Rainha querida,

Aqui me tens de regresso e, suplicante, te peço a minha nova inscrição. Ardem-me as saudades pela ausência - indesejada - de comparecimento a essa esquina. Assoberbam-me de tal maneira as obrigações profissionais que, ao final do dia/noite, escasseia-me a disponibilidade para elucubrações mais sutis. É um tal de contingenciamento de recursos para o fundo setorial de petróleo pra cá, discussão da política de concessão de vistos de turismo pra lá, queda inédita da Selic à casa de um dígito e até os ares mais amenos da cobertura do Fashion Rio, que andava mesmo afastado não só daqui, mas do mundo imprescindível do refinamento pessoal: livros que elevam o pensamento àquele indispensável patamar da abstração.

Nada, rigorosamente nada, a reclamar. Sou mesmo daqueles que necessitam estar constantemente movido a trabalho intenso para alcançar o seu melhor momento. Longe, bem longe de ser um workaholic - coisa de quem não ama a namorada, ou o marido, ou o filho, ou os amigos ou, antes de tudo, a si mesmo, portanto um rico pobre coitado -, encontro na realização das minhas atividades profissionais o fermento essencial para o desenho de uma personalidade ainda em construção que respira grande fragilidade.

O ambiente da Economia, em princípio árido, complexo e, porque não dizer, maçante para muitos, descortina, para meu próprio espanto, um universo apaixonante: o de tentar entender, através do esquadrinhamento da engrenagem política, o Brasil profundo. E é disso que tratam as duas últimas obras que havia lido, no final de semana retrasado: "Atlas da Exclusão Social - Os ricos no Brasil" e "Proprietários - Concentração e Continuidade", esplêndidos por sinal. É, por supuesto, levantamento denso para se entender o processo de acumulação da riqueza no Brasil. E que explica a indecorosa desigualdade na distribuição de renda do país. Mas, ainda assim, textos pertencentes à esfera da leitura por dever de ofício. Não só os últimos tempos têm sido de labor intenso, como encontrava-me há 12 dias em ritmo de produção ininterrupta. Ferviam-me, pois, os miolos, que moles já são.

De modo que, após tomar o café da manhã no sábado último, quedei-me abruptamente surpreso ao constatar que teria um dia inteiro pela frente a ser preenchido com...com o que bem entendesse! Liberdade das liberdades, o melhor dos mundos! Voltei para a cama com o jornal e, automaticamente, vinham-me as mais variadas opções: almoçar um peixe em Guaratiba? ver a exposição de fotos de Luiz Carlos Barreto? aproveitar o solzinho tímido lendo um dos tantos livros que esperam a vez de ser manuseados? O corpo expressou desejo manifesto de permanecer onde estava, e na cama mesmo prossegui, retomando as memórias de Nélida Piñon, que havia deixado pelo caminho pelos motivos já relatados. Como num passe de mágica, o excesso de números, medidas e teorias político-econômicas iam cedendo lugar ao universo impregnado de viagens sensoriais de Nélida. Transporte imediato, mergulho na personalidade de uma grande escritora do mundo. Esse o poder da literatura. Sou um aficionado por biografias. Mas, ao contrário do que sói acontecer, desta feita não logrei ler o livro - como se diz - de uma tacada só. Nem cheguei a sua meia parte. Encontro-me na página 120, um bom caminho percorrido entre o total de 347. Ignoro se vocês já leram. Mas já se me interpõem questões que... Francamente, não sei quando me abandonará tanta ansiedade. Voltarei a esse assunto com vocês, quando concluir a leitura.

Com a calibragem mental mais leve, uma caminhada na praia, no entardecer frio e violeta de outono, revigorou-me a paisagem íntima. Mais tarde, rumo à cozinha, no melhor estilo confort food: picadinho de filé mignon e batata assada com alecrim, escoltado por um cabernet. E muito bem acompanhado. No domingo, o roteiro se repetiu, substituindo-se o repasto por uma massinha calabresa al pomodoro. Fecho de ouro: brownie com sorvete de creme e chocolate. O mundo é bão, Sebastião. O mundo é bacana, Sebastiana. Que delícia a possibilidade desse tempo para aproveitá-lo fazendo o que amo. O que inclui voltar aqui. Saudades a rodo tuas. E das meninas que, como eu, sorvem uns licores existenciais contigo nesta esquina.

O que posso querer mais? Vê-la, rainha. Só isso. Ah, sim...e mais e melhores quedas da Selic.

PS 1: Duda, meu bem, te amo.

PS 2: O título escolhido para este texto - Onde estiveste de noite - nada tem a ver com coisa alguma. A não me ocorrer uma síntese adequada a essa verborragia toda, evoquei este que acho o título de livro mais lindo do mundo. De Clarice Lispector, ça va sans dire.
Visconde

3 comentários:

Nine de Azevedo disse...

AH querido Visconde, sua falta foi sentida por mim tanto a ponto de incomodar a Rainha por email para saber onde andavas.Volta maravilhosa,minha gourmandise acordou célere a essa hora da manha ,lendo os pratos que vossa senhoria degustou no fim de semana ,os livros ,e a caminhada na praia ,entao?!...Uma delicia!mais agora ,e os BRICS? bjs

guilhermina, (ataulfo) e convidados disse...

é... ainda bem que só se escreve saudade em português, né não?
bj

eduarda disse...

Vicomte

Só hoje o leio!
Seu ps disparou meu coração.
Seu texto também.
Deve acontecer com muitas,nâo?
Estou com muita saudade.
Bjs