quarta-feira, 17 de junho de 2009

recortes um

Recebi, na semana que passou, um e-mail que era só provocação. Provocação das melhores, daquelas que te remexe na cadeira. Mais republicano do que qualquer outro, esse amigo e remetente, chamava-me (só pode ser ironia) de rainha e convidava-me ao desjejum. Entre xícaras de café, torradas e geleias, ia me lançando ao colo recortes da entrevista com Fernando Eiras, realizada por Luciana Pessanha, e do artigo de Elisa Lucinda; ambos publicados na Revista (07.06.2009) que acompanha o jornal O globo aos domingos.

Assim é o ofício dos iluminadores: lançam luzes que redimensionam a cena. Assim é a função dos fotógrafos: descobrem o ângulo que captura o instante para sempre. Iluminador e fotógrafo, meu amigo me retirou do silêncio ao me fazer ouvir, pela voz de Eiras, que a pessoa que não fala sozinha não é normal.


Eu tenho medo de mim quando as palavras se afastam, e dos que se calam dentro, não se ouvem nem que berrem ou gritem e a desistência toma o lugar da provocação. Eu tenho medo dos que não brigam consigo mesmo, nem se perguntam e agora? ou e daí?. Tenho pavor dos que não sofrem de angústia, barulho ensurdecedor, dissonante, que procura por palavras e não acha.


Mas há outras coisas que calam, meu amigo. A impotência e a descrença podem fazer calar. E nada pode ser pior que reduzir a fala a um falatório. Palavra é ato, não ruído. É provocação ou diálogo. Falar sozinho não é o mesmo, portanto, que dizer o nada ou para o nada. É preciso resposta, reação, efeito – para que se mantenha o crédito no discurso.


Sim, palavra é processo e como tal demanda seu efeito.


Falar sozinho é tornar ato a palavra que lhe percorre, seja ela uma carícia ou um tapa na cara. É, a partir dos ouvidos, permitir que a fala descubra os atalhos até que lhe encha os pulmões, revigore o ar, oxigene os sentidos. Longe de en-si-mesmar, falar sozinho é promover-se diferente daquele que você era no instante anterior à palavra dita. E não ser mais o mesmo. Do mesmo modo, falar ao outro é, ao contrário de um despejar-lhe palavras como quem se alivia delas; fazer o dito atravessar o tempo-espaço até a inauguração da ponte de mão-dupla, por onde bocas e ouvidos deixem de ser apenas orifícios de escoamento da vida, suplicantes de significados.


Mas, essa história de ilhas (o que cada um de nós é) e pontes (o sentido da existência) já é assunto para outro recorte. E, posto que aqui a palavra se suspende, carente de resposta e urgente de continuação, ou de fim e recomeço, deixo o único vocábulo que me ocorre, como um beijo: até.


Guilhermina

10 comentários:

Renato Alt disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
CeciLia disse...

Eu tenho certeza em nós, quando os silêncios desviam dos gritos dos pescadores das bancas, eu sei do que eles dizem (os silêncios), quando o alarido é vidraça quebrada, eu sei. Querida, que belo texto! Melhor do que isso, só umas confidências de reencontro de qualquer vida, entre automóveis e tendas. Beijos, ainda ruminando nomes. CeciLia

Nine de Azevedo disse...

Guilhermina rainha querida, falo sozinha, logo sou normal!Que alivio...lindo texto ,imagens maravilhosas,inspirador café da manha!bjs
PS. nada que ver com o post ,mas acabei de ler na folha de sp que o rapaz de 18 anos que foi espancado na parada gay de domingo morreu.Me considero de luto por viver num mundo onde as pessoas querem decidir com quem as pessoas dormem!Uma barbarie!

Sus-pensa disse...

Isso é poesia, minha rainha!

Lindo demais... apesar de saber esse texto permeado por mais elementos que os expostos, permiti-me manter sus-pensa. Fico olhando de cima, sem ser petulante por isso, os movimentos todos dessas palavras, que dançam um balé precioso...

Falemos sempre. E que as minhas palavras te alcancem muitas vezes, assim como as suas que ocupam espaço importante em minha alma.

Não nos percamos uma da outra, seja por normalidade ou a-normalidade.

Meu beijo, com gosto de até!

Anônimo disse...

Até... um dia, até talvez ou até... quem sabe?
Falar sozinho mas não para si mesmo.Falar p/ o OUTRO(ICS)fazendo do impossivel suporte desejante da angustia presente no ato de viver.
Beijo-lhe os aneis

Janaina Amado disse...

Eu tive a mesma reação da Nine: alívio! Pois sempre falei sozinha, como os loucos. Este seu texto é excepcional, rainha Guilhermina. Diz muitíssimo com poucas palavras - não sendo, portanto, falatório. Abraço!

Maria disse...

Sou normal, acabo de confirmar. Tenho medo dos que não se perguntam 'e agora?'. Logo, fiz desta indagação meu ofício.

E sem ironias, és rainha sempre.
Meu beijo

Renato Alt disse...

Linda ode...
E, como não poderia deixar de ser, eis a frase que calou fundo:

"Eu tenho medo de mim quando as palavras se afastam."

Perfeito.

Beijos.

eduarda disse...

Guilhe

Mágica.
Sabias?
És.

Bj

Janaina Amado disse...

Guilhermina, deixei um selo pra você no acreditando - este vem da Itália. Abraço!