sábado, 18 de julho de 2009

libertas que será também - por Visconde de Albuquerque

Rainha, meu grande bem,

Por que cargas d´água houveste tu de mencionar bebericações e elucubrações nossas em fins de tarde? Pois a decisão está tomada em caráter irreversível. Mudo-me em breve para qualquer outro CEP não iniciado por 2 (a dúvida recai ainda entre Patos de Minas e Varre-e-Sai). Só assim, restar-me-ão esperanças de sentar-me diante de ti novamente. De meu observatório, bem te vejo a borboletear por aí com as garotas desta esquina, habitantes de municípios outros. Guilhermina, Guilhermina...por ventura desconheces que ciúme de homem é coisa infinitamente mais séria que o mesmíssimo sentimento na mulher? Se sabes, finges ignorar, perdendo levianamente a noção do perigo. Um homem ciumento não responde por seus atos.

Martha Medeiros registra que o conjunto formado por duas amigas, uma tarde livre e litros de vinho branco é o paraíso. Constituiria muita petulância de minha parte afirmar que dois amigos, uma tarde livre e litros do que quer que seja possam igualmente sê-lo?

No tempo em que nos encontrávamos amiúde, aquele ente atormentado e claudicante que sou foi cedendo, pouco a pouco, a um projeto de cavalheiro mais ajustado, com algum conceito de juízo. Quase um ser humano normal, apto a viver em sociedade. Mas, qual! A distância que teima em afastar nosotros já se faz sentir em toda a sua carga dramática. Com celeridade, retorno à deplorável esfera habitual de rabugices e resmungos. Bufo pelos cantos em lapsos de impaciência, rosno para equivocadas idéias de entretenimento, inquietam-me as conversas. Grupo de mais de 2 aflige-me. E, confesso-te, exaurem-me as próprias idiossincrasias.

Observo os casais a minha volta e entedio-me. Nunca noto uma correlação de forças, as individualidades em sua inteireza, com seus interesses pessoais, tratando de polir seus universos interiores, lapidar suas buscas e investigações. Rendo-me, por incontestável, à idéia de que sou francamente um tipo anômalo, em que pese não ser um celibatário. Mas, preciso ficar só, caminhar na praia só. Preciso ler, escrever. Preciso de silêncios. Ao ler Mutações, de Liv Ullmann, em era mesozóica, meu cérebro iluminou-se. Dizia a estupenda atriz que Bergman, com quem estava então casada, era capaz de passar dias e dias enfurnado em seu estúdio sem aparecer, digamos, na casa em si (claro, moravam em castelo norueguês, se não me falha). Ou seja, para ela. Não lembro agora se o tom era de reclamação ou de simples constatação.

Na hora, pensei: êi, este sou eu! Mas como? Ele, um senhor nórdico, escandinavo, cineasta consagrado. Eu, um jovenzinho latino, brasileiro, estudante. Onde tal identificação? O fato é que ambos formaram uma dupla arrepiante no mundo das telas. Aquele ser, aquele diretor, que tanto precisava de isolamento e introspecção, inscreveu com a própria mulher uma das mais belas páginas no cinema mundial, em filmes impregnados da mais pura humanidade, sensibilidade, delicadeza, em sua espiral profunda, torta e universal. Que casal, hein?

Por analogia, vem-me de imediato a palavra "companheirismo". O que é mais legal em tua relação com fulano (a)? Ninguém titubeia: Ah, o "companheirismo". Esse conceito tão lindo dentro da aventura humana é de tal ordem desbaratado que se aplica a qualquer situação. Companheirismo, na débil - e muito provavelmente equivocada - definição albuquerquiana, nada mais é do que o que se faz movido pelo coração. Nunca pela obrigação, tão somente pelo comodismo de querer livrar-se de um aborrecimento. Tão delicada a linha que separa a entrega da dependência.

Quem de vocês conhece um casal realmente bacana, investido na realização de suas trajetórias individuais, pessoais e profissionais, em que o sentido do acasalamento seja única e fundamentalmente o querer ficar junto? Em que um não seja o tirano, o algoz do outro? O usurpador de suas energias? O desestruturador de seus desejos mais profundos? O desorganizador de sua beleza íntima? A bengala? O pijama? O chinelo? Vejo parentes, irmãos, mães e filhos, qualquer coisa, menos casais, numa espécie de desbalanceamento que dói.

Conheceis, por acaso, um casal que diga: o que nos prende é a nossa liberdade? ("E no que diz respeito à liberdade, nunca é uma palavra que não existe"). Pois façam-me a fineza de indicar os nomes de seus integrantes. Faz-se mister entrevistá-los. Entrarão na pauta que preparo sobre o mico leão dourado.

Céus, quanta radicalidade e intolerância no que escrevo. Oh, amada, Guilhermina, avisei-te sobre as sequelas de tua ausência em meus dias. É nisso que dá. E como é lindo teu texto. Recorto: "Isso acontece de tal forma que é necessário que façamos a travessia do medo". Hum...Tem vinho branco aí?

Te abraço com tanto calor, querida.

PS 1 - Duda, renovas-me, meu grande amor sincero.
PS 2 - Só mesmo ouvindo "Autonomia", de Cartola.

4 comentários:

Nine de Azevedo disse...

Caro e querido Visconde de Albuquerque, me fazes pensar na hora do almoço de domingo depois de noitada com amigas e amigos!Nao é justo !O cérebro nao esta la muito em ordem "pour discuter" sobre a linha divisoria entre entrega e subordinaçao,algozes etc...O que posso lhe dizer tao somente é que viver totalmente sozinho nao é bom para os humanos,precisamos achar um meio termo ideal.Cada um na sua casa nos dias uteis(inuteis como diz minha filha N°1)e juntos nos findes... quiça formalidade demais tb!muita filo para essa hora,mas te amo mesmo assim!bjs bjs

eduarda disse...

Mon cher vicomte

Exausta depois de um dia de trabalho,mas ainda diante desta endiabrada máquina,descubro-vos aqui,e...mágica!

Refaço as pazes com o monitor e com o teclado,porque eles me levam até vós, e arrancam-me risos e aquecem-me o coração.Fico feliz da vida só por vos ler.

Computadores me trazem a vossa mágica vicomte.

Aceite o meu beijo.

Janaina Amado disse...

Ah, mas eu adoro os textos deste visconde!
PS - Acho que também vou ouvir "Autonomia"...

Visconde disse...

Garotas acima,
Como sois gentis!
Um beijo do
Albuquerque