segunda-feira, 13 de julho de 2009

o amor quando acontece

Meu Visconde, meu amigo,

Quanto tempo! Que saudade!

O espaço que minha memória guarda para aqueles dias em que bebericávamos à tardinha enquanto massageávamos nossos egos magoados, ou ainda, acariciávamos os corpos feridos e a almas ainda ardendo, sem destino nem direção... Naquele espaço ergui uma estátua, uma homenagem póstuma aos que ocuparam nossas vidas mais, e talvez melhor, do que nós mesmos...

Não és o primeiro a me dizer que há um valor para a vida que só conhece quem amou com toda a entrega, com sofreguidão, com desespero, ainda que disfarçado, que contido por rédeas de bom senso e de boa educação. Não discuto isso. Fazê-lo seria tão somente um exercício de hipocrisia e, você sabe, meia verdade é uma mentira inteira. Não. Definitivamente, não tenho o que argumentar sobre essa coisa toda. Nem prescindir. Nem, ainda, que lamentar seu fim. Hoje, depois da passagem de tantos dias, de dores outras, e de vazios imensos, já posso ver que há lição na perda. (E que perda!) Assim, portanto, deve ser lição das grandes, das mais importantes, daquelas que não se pode passar sem, sob pena de estacionar a vida num meio-fio e ali esquecê-la como um indigente.

Vira e mexe, releio minhas cicatrizes e traduzo mais uma sílaba de seus hieróglifos. Algumas respostas devem ainda dormir lá como numa câmara mortuária se guardavam os pertences mais queridos que foram animados por aquele que ali jaz. Sim, é quase uma reverência, você deve estar pensando... Mórbido? Meu querido, nefasto seria deixar a vida esvair-se por ali, deitando-a no parapeito pra ver a banda passar.

Mas tudo isso são favas contadas. O que ressoa de sua última presença e palavras por esses lados é a idéia de que tais encontros, dotados desta intensidade amorosa, não se repetem. Francamente meu amigo! Não me venha com tal golpe de capoeira. Até parece aquela história de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar! Crendice, meu caro, crendice. Estou cada vez mais convencida de que tal possibilidade amorosa, uma vez conhecida, nunca mais se faz por menos. Sua passagem ensina um estado de existência, uma forma de conexão no mundo, com o mundo. Isso acontece de tal forma que é necessário que façamos a travessia do medo.

Busca incessante. Eis um estado que se inaugura. Haverá como percorrê-lo sem medo? Não creio possível. E no reconhecimento de cada encontro, é de novo o medo quem comparece, desta vez pela consciência da perda inevitável. Mas não é isso mesmo: há como visitar a antecipação das pequenas mortes sem temor? Essa não é nossa condição humana, imposta pela finitude?

Será, meu querido, que a grande lição, esta tão difícil, está em aprender uma torção do olhar? Onde sempre nos pareceu que era o objeto do nosso amor o que dava sentido a tudo, a verdade que se escondia atrás dele era o próprio amor como modo de permanência? Amor que só pode ser pleno por ter sua Causa dirigida sempre ao outro e não às mesquinharias das nossas vontades, dos nossos domínios, dos nossos poderes?

Caminho nesta investigação. Às vezes, pareço avançar léguas e, no entanto, no dia seguinte, acordo aspirada pelo mesmo redemoinho, ansiando um corpo querido como se nele habitasse o segredo todo, a resposta inteira. Acaricia-me então o fato de que são necessárias poucas horas para que experimente o esvaecer desta urgência, deste me perder por recôncavos que não levam longe. Então apanho de volta meu amor e faço dele o meu altar, lugar da minha súplica, da minha devoção e da minha possibilidade.

Se lamento alguma coisa? Sim, o tempo em que deixei o amor em abandono, na cela dos condenados à prisão perpétua, como se fosse ele o algoz. Que tolice, quanta bobagem! Que desperdício o meu. Salve o ditado popular: antes tarde do que nunca. E no que diz respeito à liberdade, nunca é uma palavra que não existe.

Foi muito bom te ver. Até o próximo brinde,
Guilhermina

3 comentários:

Nine de Azevedo disse...

Querida Rainha ,o amor como modo de permanencia foi a frase que mais teve ressonancia em mim, porque tenho pensado muito sobre isso...Se nao é o amor em si que amei ,que amo e que amarei,se nao é o estado de exaltaçao sem o qual a vida me parece sem graça, insipida... ter o corpo amado ou um corpo amado,querido ao lado,a intimidade em si?Lindo texto ,fara refletir a todos!bjs

Sus-pensa disse...

Ainda que triste, belo.

Sem mais.

Maria disse...

E como diria Quintana: "o meu amor é sempre o mesmo: as andorinhas é que mudam." Qnts vezes ainda faremos o amor pagar pelo bem que nos faz?

Meu beijo