sexta-feira, 29 de maio de 2009

contraprova

Há um blog – aperte o alt – que eu adoro. Renato, seu autor, posta toda 2ª feira. Não nos oferece nem mais, nem menos. Na última 2ª, dia 25 de maio 2009, lá estava seu texto: nota. Naveguei por ele e a cada linha eu era mais parte, personagem, sentimento com voz. Eis o que minha personagem disse a ele (ou a quem ele emprestava a pele e as suas palavras)

Querido,

Não quero teus sapatos. Não me cabem nos pés, mais delicados que os teus. E além do mais, nunca propus, nem a ti nem a nós, andarmos pelos pés do outro. Desejei caminhos cruzados, o encontro das nossas estradas. Mas, confesso, não me espanta que os tenha deixado. Tu és assim. A liberdade, para ti, está sempre onde não estás. Mora do lado de fora de ti e das escolhas que fizeste antes.

Quanto debate! Assim, ainda demoras a descobrir que liberdade, felicidade e paixão são três estrangeiros que nos visitam (se encontram a porta entreaberta, posto que não têm paciência para arrombamentos) por instantes, e sempre de passagem.

Por isso mesmo, tu e eu sabemos que não saíste agora. Saíste muito antes. Começaste a partir no momento seguinte ao que chegaste. É a tua natureza: indomada e insatisfeita.

Sim, preciso de amigos, das coisas que gosto e de cumprir obrigações do dia. Tu não me bastas, como bem desejaste que eu coubesse em ti. Não caibo, não me conformo, não há como sobreviver no confinamento da tua liberdade. Desejo a ti, por isso, algum porto de deslumbramento tanto(!), que nele se espante o teu desejo em querer mais do que somente atracar como faz o marinheiro-pirata, o forasteiro explorador... Os colonizadores de exploração são saqueadores de terras alheias. Eu te quero melhor que isso. Um povoador, um edificador de alguma civilização.

Quanto ao dinheiro, o que deixaste sobre a mesa para o pagamento de metade das contas no próximo dia 5, não te agradeço. Nem se vanglorie. Não fizeste mais do que a tua obrigação ao deixá-lo. Lamento se o faz como vingança. Não te fará bem.

Agradeço a ti por outras coisas. Agradeço pelo que deixaste de lembrança, essas raízes-parte da minha história. E agradeço também pela ausência de contato que me prometes a partir de agora. Nada poderia me ser mais protetor dos malefícios do teu ressentimento.

Ressentimento, sim, ainda que o tente negar. Mas que outro afeto poderia ser responsável pela tentativa em vão de ser indiferente? Já te disse antes. A indiferença não dirige palavras, ao contrário, é vazia delas. É nesse ponto precisamente que a tua traição, a verdadeira traição (porque atinge a você e não ao outro) acontece: quando desejas justificar tua partida na desqualificação da última paragem. Quanta bobagem! Quanto desperdício! O que te falta para o entendimento de que há sabedoria em desejar mais ao invés de sempre querer outra coisa?

Guardo a foto de Sierra Nevada, pode deixar. Preservarei todas as lembranças que minha memória puder armazenar. Por afeto? Certamente. Mas também por ensinamento. Como haveria de escolher, seja o novo ou o mesmo, sem os registros daquilo que já vivi?

Deixo este bilhete, e os seus sapatos, na casa da tua mãe, para que os encontre na próxima visita. Lixo? Você quem sabe. Talvez você um dia os descubra como relíquias. Ou escombros.

Boa Sorte.

P.S. Deixarei lá o teu chaveiro também. As fechaduras das portas, social e de serviço, foram trocadas.

8 comentários:

Nine de Azevedo disse...

AS palavras foram minhas por assunçao como diz a Bailarina!bjs PS.ja disse para voce e o Renato que voces sao tradutores de estado de alma

Renato Alt disse...

Maravilhoso testemunhar um texto tornando-se algo mais, deixando o confinamento de um endereço e dialogando com outros espaços... maravilhoso percebê-lo criatura viva, alimentando-se de outro e crescendo.

Além disso, maravilhoso perceber como cada palavra funciona em cada um que a lê: o contexto no qual imaginei meu "Nota" era tão absolutamente contrário ao denotado aqui, era um ponto final em tanta coisa (para os dois envolvidos), que descobrir uma resposta foi, antes de tudo, uma imensa surpresa.

Obrigado pelo privilégio deste diálogo, Guilhermina! Precisamos fazer isso mais vezes.

Beijos.

CeciLia disse...

liberdade, felicidade e paixão são três estrangeiros que nos visitam (se encontram a porta entreaberta, posto que não têm paciência para arrombamentos) por instantes, e sempre de passagem.

Guilhermina querida, como não pensei nisso antes? Ah, queria tanto dizer isso a algumas pessoas, por que é que nunca soube assim, com a tua clareza?

Beijo, bom final de semana. Provocação e respostas belíssimas.

Sus-pensa disse...

Rainha, você foi maravilhosa em nos proporcionar essa conversa! Nossa, uma delícia! Estava aqui pensando que a Esquina precisa desse tipo de bate-papo e, de repente aconteceu! rsrs Maravilhoso!

Confesso que no seu texto há a serenidade de quem já tem um problema resolvido, enquanto que no texto do Rêzito, a coisa ainda tá meio quente no peito... Parece mesmo, como ele disse, que são momentos diferentes. Enfim, sendo o mesmo ou outro, eu amei esse movimento!

Concordo com o Rê: "Precisamos fazer isso mais vezes."
Na próxima, eu quero brincar também, viram? rsrs

BeijOs ao Rêzito; beijos à minha Flor Nine (que deixou os espinhos lá no Aperte! rsrs), e todos os meus carinhos e abraços e beijos sem cerimônia para a Rainha!
Amo vocês!

Anônimo disse...

Então o q/ parecia impossivel aconteceu!
O (des)encontro da tranquilidade doída, doida da paixão elaborada em um novo carinho com a dor da urgencia de sair (para o nada?)por medo da força da paixão ainda presente.
Valeu!

bossa_velha disse...

e realmente é uma carta muito bonita. vou visitar o tal blog. :) boa descoberta.

eduarda disse...

Guilhe

Interessante.
Transpor,sobrepor...
Reviver,re-escrever,
Domar a fera...
Será possível?

Anônimo disse...

P/ completar vamos ouvir Maria Bethania cantando Roberto Carlos e dar um ponto final. beijos
meus respeitos, Sra. Rainha
mas ouça Maria cantando Roberto
Bjs1000