terça-feira, 26 de maio de 2009

um cordão de muitas pontas

Semana passada, na sala de espera para fazer uma ultrassonografia, exame de rotina, nada de mais; encontrei um folheto-propaganda de uma clínica que anunciava já estar disponível a nós brasileiros, nação em desenvolvimento, a tecnologia para coleta e armazenamento de células-tronco retiradas do cordão umbilical de nossos recém-nascidos.


Tratava-se de marketing dirigido e bem posicionado: gestantes são as mais assíduas e felizes clientes de clínicas de imagem (ultrassonográficas). Mais que isso, mulheres-mães-cangurus são alvos facílimos de serem atingidos pela oferta de produtos, serviços, frescurinhas e acessórios; úteis ou não; para o bebê. Aquelas de primeira viagem então... chegam a dar nos nervos!


Eu; uma futura-talvez promessa remota de avó, não sei bem se por prudência ou se porque adooooooro papéis, cataput, mandei o folheto pra dentro da bolsa, pensando em mostrá-lo às minhas duas filhas.


Cá entre nós, aqui à boca pequena nessa nossa mesa de bar virtual, essa história de célula-tronco é genial! Torna real aquele desejo humano, muito antigo, de poder adquirir peças de reposição, caso a original falhe, e ainda vem com o bônus de fazer um up grade?! O que mais poderíamos querer? Estamos diante de uma daquelas coisas que nos faz ter que relativizar o velho e chato jargão... no meu tempo era tudo muito melhor...


Pois bem, assim que cheguei em casa procurei pelas minhas filhas para mostrar o folheto. A mais velha, já com a mochila nas costas, saiu rápido, deixando a conversa para depois. A mais nova, estudante de medicina, pegou o folheto interessada, ensaiou sua didática para ampliar meus saberes sobre o assunto e chegou às questões éticas, que neste caso, nem envolve o quesito “embriões congelados”, já que estamos falando da coleta em cordões umbilicais de recém-nascidos. Estávamos, portanto, transitando pela seara mais fértil e generosa da medicina, das ciências afins e da tecnologia. Era uma daquelas coisas que faz a gente se orgulhar da espécie, da inteligência, do verdadeiro serviço à existência.


Já ia dando a conversa por encerrada quando ela levantou a bola: ...o problema, né mãe, é que os bancos de coleta e armazenamento deveriam ser públicos e gratuitos. E porque não, as doações obrigatórias, já que o procedimento não oferece risco e é indolor. Em caso de necessidade, o paciente buscaria um doador que lhe fosse compatível... Agora, esse negócio de pais pagarem para preservar o material do seu filho, para consumo próprio é um absurdo!


É? Mas por que você acha isso?
Perguntei


Por que você não acha bom que cada um preserve o seu material, diminuindo a chance de rejeição?


Ela nem parou para pensar. A resposta já estava pronta: primeiro porque se for assim, mais uma vez só alguns privilegiados terão acesso a esse recurso. E isso tanto enriquece esta medicina de castas como mantém a perversidade que vemos na saúde pública, atualmente. E depois, e o que é ainda pior, se em muitas doenças, já podemos comprovar que existe um fator genético de predisposição para seus desenvolvimentos; a introdução de célula-tronco de um paciente nele mesmo tende a reforçar esta predisposição. É como beber água da mesma fonte contaminada que te fez adoecer. Mas, ao contrário, quando encontramos um doador diferente e compatível, é claro, aumentamos muito as chances de não reforçarmos o problema, entendeu?


Foi ela que encerrou a conversa, indo fazer outra coisa. Fiquei ali, parada, pensando no assunto. Então agora está cientificamente comprovado que se preocupar somente com o próprio umbigo é uma burrice. E que custa caro?! Que mais será necessário para o mundo compreender isso?


Beijos,
Guilhermina

7 comentários:

Nine de Azevedo disse...

Querida Guilhermina, muito bom o texto.Essa questao é tao contraditoria e cheia de tabus que eu confesso ainda nao ter opiniao formada e depois da explicaçao da filhote piorou!Para ser mais uma coisa elitista,nem quero saber !Ja temos demais!Ah e sei la, vai ver estou sendo retrograda, mas nao achei la muito ético essa distribuiçao dos panfletos nesse lugar.Mulheres gravidas sao tao vulneraveis ,cheias de hormonios que nao é o melhor momento para decidir um fato tao importante.Deveria ter algum tipo de orgao que coibisse esse tipo de propaganda...bjs e boa volta!

Janaina Amado disse...

Bem, eu estava como vc., toda satisfeitinha com a célula tronco... Agora, depois do seu(ótimo) post, tenho um bocado em que pensar. Mas sabe? Continuo entusiasmada com as imensas perspectivas abertas pela descoberta cientítica da célula tronco: questões sociais e políticas relevantes, como as que sua flha apontou, a gente vai discutindo e resolvendo paralelamene. Ao menos, assim está me parecendo agora. Abraço!

Susanna disse...

Adorei o texto!
Adorei o momento coruja!

Sobre as células-tronco, pensemos... Ainda há tanto...

Beijos!

Anônimo disse...

Sra. Rainha
Ser jovem = contestar sempre
(Diga não ao não)
Ter um pouco + de estrada = poder saber ouvir
Dai numa espécie de somatório ocorre na maioria das vezes uma complementação
resultado final?
um mundo de interrogaçoes q/ se colocam e enrriquecem possibilitando c/d um q/ busque sua resp.

No mais Deixa a Vida nos Levar
Beijo seus aneis

Maria disse...

A questão das células-tronco, por mais intrigante que seja, abre um leque de posibilidades de cura, alguma cura, qualquer cura - quem precisa não discute. Mas é claro que, como todas as coisas mais incríveis da ciência, beneficia somente quem tem dinheiro. No entanto, veja só, por pura ironia, garantir a retirada das células não garante que quem tem dinheiro estará imune para sempre, de qualquer problema. Seria perfeito se todos pudessem ter suas células recolhidas, e as chances fossem iguais para todos. É um sonho, eu sei. Mas vale lembrar que pensar em armazenar células-tronco tb já foi um sonho - e dos mais absurdos. A medicina vai evoluir sempre, mas nenhuma evolução vai apagar por completo os riscos ou as predisposições. Se isso acontecesse deixaríamos de ser humanos. E não é isso que queremos? (Ou é?)

Meu beijo, querida.

Aderbal Torres disse...

A propósito, recomendo assistirem ao filme GATTACA (1997). Na minha opinião, um dos melhores do gênero. Uma Thurman, Jude Law, Ethan Hawk, além de Ernet Borgnine, sob direção de Andrew Niccol (o mesmo diretor do Show de Truman).

Renato Alt disse...

Nada como um assunto polêmico para exercitar os pensamentos.

Bom demais poder fazê-lo nesta arena!

Beijos.