domingo, 7 de junho de 2009

a conta, por favor

No meio da conversa, o primeiro dizia que havia prescindido da perfeição. E engatava num discurso sobre a sua descoberta de um novo parâmetro – o suficientemente bom – com ares de libertário, como quem houvesse recém adquirido uma sabedoria. ...A perfeição além de ser uma neurose, é uma chatice. Uma busca em vão, um desperdício. Se há perfeição, ela é divina, e isso, supondo a existência do divino! A perfeição como meta, como parâmetro é sempre uma frustração, o que acaba fazendo qualquer um se tornar uma cara insatisfeito. E todo insatisfeito é um rabugento. Caí fora. Cansei de correr atrás do impossível. Agora eu quero outra coisa: aproveitar as oportunidades. Quero o prazer de encontrar um bom resultado, mesmo que parcial, ao final de qualquer investimento. E satisfazer-me com esse resultado. Comemorá-lo! Isso é que é saber viver...


O outro olhava o seu interlocutor com espanto. Incrédulo, buscava, nas entrelinhas do discurso do amigo de longa data, os traços daquilo que partilharam por tantos anos. Titubeava uma resposta. Suficiente sempre fora, para ambos, análogo à medíocre – na média – com toda aquela conotação de ausência de excelência, de destaque, de brilho ou diferencial. Aquilo tudo que eles tinham se prometido, anos atrás, jamais escolherem por isso. Desde o boletim escolar, ainda no primário (atualmente, 1º ciclo do ensino fundamental... Como complicaram as coisas...), eles tinham horror daquele “S” – de suficiente – como conceito. Aquilo maculava seus esforços. Era o famoso “passar raspando, por um triz”, com o alcance do mínimo do que fora estabelecido como meta.


Começou a falar invadido por estranha emoção.


Mas... a gente queria... a gente sempre quis tanto mais... A perfeição? Sim! A perfeição como construto, como parâmetro, como aquilo que seria sempre o norte. Uma indicação do que faltava em tudo, em qualquer coisa. Era uma premissa, um pacto, um saber que se articulava com o que desejávamos ser. Porque isso existia e sabíamos disso, o sucesso era sempre uma etapa, uma parcialidade que a comemoração não embebedaria nossos egos, assim como o fracasso era uma lição e não uma derrota, tão definitiva quanto implacável. Sim, a perfeição não era algo tangível. Era sua busca que a fazia importante. Essa persistência era o diferencial. Uma escolha por nossa humanidade...


No meio do discurso se deu conta de que as palavras eram quase uma súplica. No mínimo um lamento. E estancou.


O amigo tinha um semi-sorriso no canto da boca. Ironia? Disfarce? Indecifrável.


Você continua um idealista. Um sonhador. Foi o que disse.


Você é um traidor. Um protótipo de velhaco. Foi o que ele quis dizer. Mas calou e pediu a conta.

***
beijo,
Guilhermina

7 comentários:

Susanna Lima disse...

E quantas vezes é necessário, a fim de manter a amizade - de longa data, de anos, de experiências comuns, de vida inteira -, ficar no que se quis dizer, mas não será dito nunca, não é?

Há uma música, do Jair Oliveira, que diz "às vezes o silêncio tapa os buracos, e o amor prossegue intacto"... é bem isso!

Beiji, Rainha minha!

Maria disse...

Diálogo tão bem descrito que torna difícil opinar a respeito. Acho que os inatingíveis são necessários, é o que faz brilhar os olhos. Mas acho que tem que ser sempre uma esperança a mais de quem não aceita o medíocre e não de quem é ingrato. Tem que se aproveitar as oportunidades, ser completamente grato por elas, mas manter os olhos no melhor que se pode fazer, para que as conquistas não cessem nunca. Penso eu desta forma, por hoje.

Meu beijo, querida.

Nine de Azevedo disse...

Rainha minha amada,muito bom o texto,o dialogo tao real!Estou numa fase de aproveitar o momento,o que a vida me oferece.Nao estou buscando perfeiçao como meta,creio que desmotiva.bjs

Unknown disse...

Guilhe

Dois amigos,duas idéias.
Duas personagens em aparente antagonismo,mas que bem podem ser agonistas do mesmo sonho.
De descobrir caminhos.

Beijo

Janaina Amado disse...

Este foi duro.
Abraço!

Aderbal Torres disse...

Como é difícil viver. Passei anos acreditando que o que tinha era o suficiente, embora, certa vez, me disseram que eu queria mesmo era mais, muito mais. Busquei sim, o conforto da média, assim como o leite com o café. Por um tempo, tive e me satisfiz, mas não consegui ir adiante. Fracassei, fali, caí e agora busco uma saída.

Lua em Libra disse...

Glups!!

Acho que a Ceci e a Lia, ambas, alternadamente, já ensaiaram esta conversa. (Será que elas falaram alto demais e tu ouviste, foi isso?)

Beijos, querida amiga de infância. Até segunda. Ah, claro! Adorei muuuuito o texto.