sexta-feira, 3 de abril de 2009

arroz, feijão, alforria e honra


Existe sim, no nosso país, no Estado do Rio,

a criminalização da pobreza e a política de extermínio”

Márcia de O. Jacinto


Do mesmo jeito que a polícia usou a mídia para sujar

o nome de Jean e do Brasil,nós usamos para provar

quem é o brasileiro e quem era Jean”

Alex Pereira


Aquela sexta-feira, já faz uma semana, amanheceu como se fosse treze. Nine me acordou como um despertador, com a notícia no Yahoo sobre o suposto tratamento para reversão da homossexualidade – indicação dos ingleses... Eu provavelmente havia sido abduzida durante o sono e catapultada ao século XIX. Aquilo só podia ser uma mensagem enviada por telégrafo! Meu estômago reclamou o café da manhã, mas eu estava desorientada e era urgente procurar a saída daquele pesadelo. Desci as escadas, cambaleante, duvidando do meu senso de orientação. Mas a xícara estava lá sobre a mesa e ao lado, o jornal. Olhei a data antes de abri-lo só para me certificar de que se tratara de uma brincadeira de mau-gosto, aplicada por algum diabinho perdido àquela hora da manhã. Sim, estava lá: sexta-feira, dia 26 de março de 2009. Seria a Nine, então, que estaria atordoada? Andara sofrendo, magoada com os últimos acontecimentos, e vocês são testemunhas: andou até encontrando ETs... Pobre Nine, pobre Nine!!!! Telefonaria para ela, pensei, provando o café. Explicaria com carinho que essas brincadeiras não tem graça, que vivemos em outra época, que isso aconteceu há muito tempo ou que a internet está cheia de armadilhas. É bom tomar cuidado... Hoje, quase terminando a primeira década do século XXI, homens se casam com homens, assim como as mulheres entre si, adotam crianças, ou as concebem por gestação, tem direitos civis, se comprovada a união estável. Querida, eu lhe diria, é crime a discriminação ao homossexual e já vai mais de quinze anos (1º de janeiro 1993) que a Organização Mundial de Saúde deixou de tratá-los como doentes, reconhecendo assim o equívoco de considerações anteriores.


A essa altura, a primeira xícara de café já terminara e eu já encomendara a segunda. Fresca e fumegante. E abrira o jornal, mesmo sabendo que este é sempre um derradeiro momento matutino, daqueles que a gente define o dia: desespero ou resistência?! O telefonema para Nine ficaria para mais tarde. Lá estava a cobertura completa: prêmio “faz a diferença”. Quatro páginas inteiras, repletas de fotos e histórias. A primeira história era a de Márcia Oliveira Jacinto. Impossível não se comover com uma mãe que perdera seu filho num tiro da polícia. Era dor profunda, daquelas a qual não se sobrevive. Márcia sobreviveu. Para lutar pela honra do nome do filho. Vou repetir: Eu disse honra. Uma zoeira voltou a rondar minha cabeça... Lá ia eu novamente ao túnel do tempo? Não era na Idade Média que a honra merecia um duelo em sua defesa? Pois Márcia duelou contra a depressão, a pobreza, a exclusão, a corrupção, o corporativismo da polícia brasileira... para que não transformassem seu filho, vítima de assassinato cruel e vil, em réu, condenado e executado sem julgamento e sem defesa. Márcia duelou e venceu. Não foi possível conter minha emoção, para que não subisse aos olhos. Chorei por Márcia, por Hanry – seu filho, e por nós. Chorei sem vergonha nenhuma, mesmo sabendo que isso, em nossos dias, é absolutamente desprezível, motivo de chacota.


Depois veio a história do Alex Pereira, primo do Jean Charles de Menezes, aquele brasileiro morto no metrô de Londres. E novamente lá estava mais uma luta pela honra. E contra o abuso dos poderosos. Márcia e Alex nos convocam nesses nossos tempos de impunidade e paralisação? Naquele momento, já com cafeína suficiente no sangue e na mente, eu me perguntei o que mais precisamos perder para que a honra nos provoque também a uma luta que nos revigore o sentido. Márcia e Alex acreditam no valor de seus nomes próprios. E nós acreditamos em que?


***


O que posso desejar a todos é muito arroz, feijão e cinema...

que alimenta a alma das pessoas e fortalece a consciência de um país.

Adailton Medeiros


Ia enveredar na investigação da pergunta que acabara de formular quando o bonde de outrora rangeu nos trilhos novamente, já nas linhas seguintes do jornal: “Cada livro é uma carta de alforria” (Ricardo Ferraz)... “Com os livros já fui várias vezes à Pasárgada, já dei a volta ao mundo em 80 dias” (Otávio Júnior)... Sim, lá estavam os dois – Ricardo e Otávio – mais de um século depois da lei Áurea a nos lembrar que a escravidão resiste na ignorância e na interdição ao sonho, irmão gêmeo da literatura, ambos filhos da arte e da cultura. É verdade, meu caro Visconde, vivemos em terras tão insalubres que nossos herois são aqueles que emprestam letras para os sonhos da gente. São Zumbis dos nossos quilombos, pós tantos anos de república. E a julgar pelos dados que você nos forneceu, meu amigo, não sei por que tememos as tsunamis, ondas que devastam na velocidade de uma mínima fração do tempo. Não é muito pior essa contaminação silenciosa dos lençois freáticos que percorrem todo o subsolo com a ignorância e a amputação da fantasia? Ricardo e Otávio desafiam nossa inércia e nossa inoperância, nossas vidas asseadas pela mesmice. Não distribuem cestas básicas a quem tem pouca comida. Distribuem livros a quem tem fome na alma.


Alforria e honra – dois conceitos de mil oitocentos e alguns anos que insistem à nossa porta como se estivessem acorrentados, por forças terroristas, no meio da mata atlântica... O que fizemos do século XX?

Um beijo,

Guilhermina

7 comentários:

Nine de Azevedo disse...

Querida Rainha infelizmente nao era brincadeira de 1° de abril nao.Era fato ,e vindo de uma universidade de prestigio inglesa...Apesar das minhas magoas , infelizmente (sim ,as vezes acho que é infelizmente)ainda estou lucida.Quem sabe nos entramos num burado de vermes? Para quem nao sabe, é uma teoria da astrofisica.Voce poderia atravessar o espaço-tempo sem dar a volta, como um verme numa maça.O tempo linear nao existiria.Deve ser isso ,Rainha querida,tem uns viajantes do tempo ,eles vem da idade média tumultuar nosso século!bjs para voce ,Visconde e todos que vivem a espreita de invasores do nosso tempo...

Susanna disse...

Rainha, o século XX foi acelerado em demasia. Não deu tempo, ainda, de algumas nódas se desfazerem. Fico pensando, apenas, se esse tempo nos será dado, sabe...

Mas que beleza de texto indignado, hein? Adorei! Palavras pulsando, e tão fumegantes quanto o [nosso] café!

Parabéns querida...
Meu beijo!

Beijo de Girassol para o Visconde, e de Orquídea para a Nine!

Susanna disse...

oops: *Nódoas..rs

Maria disse...

Querida Guilhermina, li e reli, e de novo e de novo...o que fizemos, então do século XX? Talvez estivéssemos ocupados demais gritando o que conseguimos e esquecendo de viver. Coerência, entende? Tínhamos a vida, sem conquistas. Temos agora as conquistas, mas ainda não a vida. Temos a teoria, e todos os séculos de não prática. Sabe, eu não sei ainda, mas creio que de tanto pensar nesta pergunta, um dia terei a resposta. Espero eu, que ainda neste século!

Meu beijo

Visconde disse...

Minha Rainha,
Deixo-te apenas um beijo de muitas saudades. O que haveria eu para comentar sobre teu texto vulcânico?
Nine, Susanna, beijos-as também.
Visconde

Fabiano Barreto disse...

Guilhermina,

esse texto só faz confirmar a pessoa extremamente ypsilones-flictsclics-pitanga que você é - isso é elogio, tá?

Impagável!!!!!

parabéns e um grande abraço!

guilhermina, (ataulfo) e convidados disse...

meninas e rapazes,

Vou acabar cheia de mim. agora os elogios vem até em dialeto!
Bj
Guilhermina