domingo, 19 de abril de 2009

entre hiatos

Alguém que me é muito caro um dia me disse ...eu vivo a contragosto... Não era um lamento. Era constatação. A vida lhe doía com sua permanência, sua insistência em amanhecer.

Hiato

Recentemente, sentada aqui, nesta mesma cadeira, de onde navego aparentemente sem sair do lugar, esta afirmação, uma das mais doloridas que já testemunhei, voltou à lembrança como se a ouvisse de novo, naquele exato momento. Mas quem era que agora me dizia?

Hiato

Outro dia, num blog, o autor fazia referência a uma tal “inveja branca”..., que outros chamam de “invejinha”. Logo depois, em meio a um acesso meu, de zanga e indignação, meu interlocutor comentou, assim como quem não quer nada, que “aquela raiva era santa”... Ora, minha inveja é roxa, minha raiva é vermelha e meu medo é (e faz tudo) cinza! Sem diminutivos nem disfarces. Os de vocês, não?

Hiato

Na internet, não se caminha, não se passeia, não se transporta... se navega. Esta imagem sempre me traz uma sensação de desorientação. De estar à deriva, sem bússola, sem ruelas, sem sinais. Uma ausência de esquinas, justo destas que tem a função de orientar-me para leste ou oeste, norte ou sul. É claro que me aventuro, muitas vezes sem direção. Mas possuo um bloco de notas onde registro endereços e atalhos como quem constrói seu próprio mapa. É preciso saber aonde, para poder voltar. São necessárias as rotas para poder seguir.

Hiato

Seguindo setas alheias, cheguei sem aviso à casa de Lua em Libra. Destaco duas publicações que encontrei ali naquela praça: Nem e Eu estrangeira, as quais li e reli muitas vezes, como quem volta ao mesmo banco da praça, para observar o burburinho e as copas das árvores. Não soube o que buscava naqueles dois bancos da casa de Cecília, a autora, a dona das redondezas. Como ela, estrangeira, ousava vasculhar-me as entranhas como um robô laparoscópio? Entrando por minhas fendas, invadindo as vísceras... Como ousava, à distância, identificar minhas cicatrizes de não esquecimento?

Dizem que o inconsciente guarda tudo o que não podemos lembrar, pelo tanto que dói e, ao mesmo tempo, não podemos esquecer, pelo tanto que importa. Como ousou Cecília, a estranha; deixar exposto assim o que nem sei (que sei), mas não esqueço. E pior: avisar-me, prenunciar meu medo!? Exigir as costuras dos hiatos até à resposta. Que há de não ser somente entulhamento, um disfarce, uma meia verdade que inscreve a mentira inteira, onde me escondo.

Odiei Cecília, a quem sequer conheço, por ousar saber de mim sem nunca ter me visto e ainda me emprestar as palavras das quais me esgueirei nos últimos anos, com esmero e atenção. Como ousa ela me contar em primeira pessoa, como quem fala de si? São delas as palavras que desprezei como minhas, as que não quis e evitei. Mas, se são dela, como podem doer em mim?

Querida Cecília, isto é resposta. E sobre esta resposta ainda cabe mais uma indagação: então não é a arte a maior de todas as interpretações? Posto que desconhece sempre a quem se dirige... será sempre àquele a quem toca, como carícia ou tapa na cara. Então lhe agradeço, Cecília, foi a tua casa o meu farol, em pleno mar aberto.

Beijo,
Guilhermina

Foto de Cecília Cassal do blog Lua em Libra

6 comentários:

CeciLia disse...

Pára! Pára tudo para eu fazer reverência. Eu, que nem sei bem o que escrevo, embora saiba de onde vem. Pára. Guilhermina me dissecou. O que eu faço agora? Sigo o trabalho, evidenciando ainda mais os vasos e fibras e órgãos cruamente expostos? Guilhermina me expôs e eu nem sabia como era. E eu era um atobá com a asa partida que eu jamais esqueci. Como as mabuias das encostas da ilha. Como a eterna saudade de uma ilha, rasgada de seu continente.

Um beijo e obrigada, Guilhermina. Teu post me emocionou.

Nine de Azevedo disse...

AH Guilhermina rainha...cecilia,a quem nunca tinha visitado,tambem me identifiquei muito como "nem e eu ,estrangeira".Nao fiquei com raiva da Cecilia nao ,mas fiquei pensando em Platao,deve ter mesmo pares que foram separados no mundo ,tribos inteiras.As palavras dela traduzem meus sentimentos ,mesmo que se sentassemos para conversar nossas estorias fossem diferentes.Saudade é um pedaço da gente que ficou no outro...Fui amputada ha algum tempo ja...mas vou me restaurar, como o rabo da lagartixa!bjs as duas.

Susanna disse...

Amei o desprendimento de se deixar ver, e indicando onde, Rainha...

Meus carinhos de sempre! Porém novos! rs

Maria disse...

Guilhermina, querida!

Quem consegue descrever com tanta certeza como você? Como admiro...
Vc nos faz desejar o que te interessa, como se colocasse tua luz lá, entende? E nosso olhar é conduzido sem escolha!

Se é bem assim, pois vou te conhecer por Cecília. Estou indo.

Meu beijo

Nelida Capela disse...

Cada vez melhor esta Esquina do Desacato! A "culpa" é toda da Rainha! Essa é a culpa das boas, aquela que traz resultados, bons encontros, produtividade. É isso aí. Parabéns a todos os participantes que fazem deste espaço uma ágora de diálogos interessantes!

Fabiano Barreto disse...

Concordo com a Nelida!

Que seja culpa sem qualquer remorso!

Não sei como consegue entalhar tão bem as palavras no lugar certinho (como sempre)!

Parabéns!!!