sexta-feira, 24 de abril de 2009

carta aberta à Cora Rónai

Querida Cora,


Ontem, no feriado por São Jorge, o santo do cavalo contra o dragão, quando logo pela manhã encontrei estes porquinhos envoltos em jornal na sua coluna (Cora Rónai - O Globo), não contive a indignação: Pela espada de São Jorge (!) O que haveria de ter feito você, justo neste dia, trocar seus gatos por porcos??!


A primeira página do mesmo jornal já tinha me embrulhado o café no estômago: baixaria e baixeza no Supremo Tribunal Federal; Clero (também baixo!) na Câmara; E bandalha! Muita bandalha nas ruas do Rio. O choque de ordem do mauricinho? Querida, pasme, a bagunça era promovida pela turma do próprio! É!... Sabe o secretário... aquele, o engomadinho, esse mesmo, o que manda quebrar barraco, confiscar camelô e rebocar os carros... Pois é, menina, era o próprio estacionado em fila dupla. Ele e os carros da polícia!... Na mesma página, ainda tinha o homem, o presidente do Paraguai. Não pára de aparecer filho para o excelentíssimo. Eu nem consigo formular qual é o problema no caso. Será que são quantos filhos de tantas mulheres? Ou a questão é que o homem era bispo quando prevaricou? Ou ainda é porque não paga pensão pras crianças, o desgraçado?... Bem, mas deixa esse distinto pra outro dia, que já nos basta os homens daqui pra engraxar, não é, querida?


Voltando aos porcos, os enrolados no jornal... eu quero te falar uma coisa. Amiga, o que é isso de “vergonha na cara”? Essa história, no mínimo denuncia a sua idade! É nisso que dá essa sua mania por gatos... quando o assunto chega no chiqueiro, e lá se vão anos que a gente engorda esta dinastia de suínos, “falta de vergonha” é condição sine qua non. Já faz tanto tempo que vergonha, quanto mais na cara, é tão antiquado, que escapou por pouco desta palavrinha ser excluída da nossa língua, nesta última reforma ortográfica.


Já existe campeonato de “falta de vergonha” – em modalidade coletiva e individual. Não me diga que você não sabia! As regras do tal campeonato são um pouco complicadas para nossas cabeças fora de moda, mas faça um esforço, vou tentar te explicar: o segredo está em desarticular o maior número possível de valores éticos.


Hombridade, por exemplo... Hoje em dia?! É absolutamente démodé. Não convém nem falar essa palavra alto. Pega mal, sabe? Convenhamos, esse negócio de integridade, escrúpulos... aquele orgulho que se tinha em manter seu nome e sua imagem livre de máculas... correção de conduta... dava muito trabalho e pouco retorno...


Outra coisa: Ideologia, não! Pelo amor de São Jorge! Isso não tem mais o menor cabimento! Esquece. Abole. Arquive para sempre. Pra nunca mais pensar sobre isso! Se é coisa de otário? É pior, é coisa de desinformado. E se tem uma coisa para a qual não há perdão nos dias de hoje, essa coisa é a desinformação. Aproveita e descarta junto todo esse lixo, toda essa baboseira de “compromisso com a palavra”, “coerência entre o que se diz e o que se faz” e “servir ao coletivo”.


A vida anda, Cora, hoje o negócio é tendência. Além de te manter up to date, evita essa coisa de isolamento, entende? Mas o que é melhor ainda é que seguir a tendência justifica qualquer coisa: crítica, questionamento ou acusação. Isso mostra seu caráter, ou melhor (jamais use a palavra caráter), sua natureza flexível e antenada com as reviravoltas mundiais. É o coletivo a serviço do indivíduo! Isto sim é que é revolução!


Se pode ser melhor que isso? Só se você criar tendência... Mas aí o negócio demanda além de criatividade, umas doses a mais de cinismo, um estômago blindado pra comer muita “lavagem” e as costas protegidas. Isso você só consegue ou por herança, questão de sobrenome; ou por apadrinhamento. O importante é que para ser vanguarda tem que ter retaguarda. Isso não mudou muito... poder é poder, só ficou mais podre.


Finalizando, minha amiga, pra responder a tua pergunta sobre legalidade e moralidade, é o seguinte: quando se cria uma tendência, ela carrega junto uma jurisprudência, entende? É uma questão de usucapião, de precedentes e maioria... Já quanto à moralidade, coloca também no baú e não fala nunca mais nisso... ofende, é termo militarista... ou coisa de ressentidos, dos que não fazem parte da história... coisa de “coroas”. E, definitivamente, o lado da moeda que hoje ganha o jogo é “cara”, ok?


Beijo,

Guilhermina

foto retirada do blog da Cora

8 comentários:

Susanna disse...

Gente, mas quanta acidez e sarcasmo! Adorei! rs

O ritmo de conversa regada a expressos e cigarros tá tudo de bom!

Sou sua fã! Quero ser igual a você quando crescer..rs

Beijos, Rainha!

Nine de Azevedo disse...

Querida e amada rainha levantaste indignada no dia do santo guerreiro heim?!!nao li o artigo,mas participo da sua indignaçao.Bjs

Vanessa Motta disse...

A tristeza está em pensar que no dia somente o santo é guerreiro..os demais passaram a achar muito natural tudo isto. Não me sentiria admirada se passassem do lado de um Dragão e não o enxergassem.


Como já te coroaram..es Rainha mesmo..um grande Beijo!

Euzinha! disse...

sempre leio a coluna da Cora, desta vez perdi, esta em São Paulo a trabalho, cheguei morta e só procurei uma cama.
é muito bom ler seus textos.
concordo com a Susanna, quando crescer quero ser como você.
beijo!

Visconde disse...

Rainha, amada,
Ainda sob o efeito de entardecer contigo e os teus, que única pergunta farias à Ronai diante dela?
Beijo-te com ternura.
Buca.

guilhermina, (ataulfo) e convidados disse...

meninas, como bem nos disse o visconde, gostamos de conversar entre nós! Agora, cá entre nós... se ego inflasse, o meu estaria para estourar com todas essas gracinhas de vcs... bj

Nelida Capela disse...

Nossa Rainha...a coisa aqui está a ferver, hein!? Muito bom! É a Esquina do Desacato aí, gente...

Aderbal Torres disse...

Pois é, eu tb li a coluna da Cora e fiquei pensando no que poderia fazer para vomitar mais essa indignação. Resolvi. Imprimi duas folhas com 3 palavras: Congresso Vergonha Nacional e colei nas duas janelas laterais do meu carro.