sexta-feira, 17 de abril de 2009

bonito como a cara do meu filho: Tempo - por Visconde de Albuquerque


Guilhermina amada,

Ainda estala na memória de minhas pupilas gustativas as iguarias de tua casa. Que almoço sublime de Páscoa! Desconhecia essa faceta da feitura de tão inebriantes sabores pelas mãos de Rita. Por Camões, hei de sonhar com aquele esplendor de bacalhau por séculos afora e Tejo adentro! Os camarõezinhos tenros, os profiteroles, tudo sabendo a carinho e esmero. Entre os comensais, peço vossa permissão para destacar a presença do príncipe Felipe. Como anda forte e belo esse rapaz! E, como não poderia deixar de ser, o nosso nobilíssimo Ataulfo e sua imperturbável senhora. Ah, que enlevo compartilhar a serenidade de D. Flores, sua fala mansa, pausada, capaz de pacificar os espíritos mais empedernidos. Quanta cadência ao expressar seu pensamento sempre equilibrado, tecido na malha suave de comedimentos e ponderações. Uma criatura verdadeiramente temperada na placidez e que a todos envolve em seu manto apaziguador.


Creia-me, amiga, foram momentos tão deliciosos que já deixei vossa casa com vontade de voltar. O ambiente familiar, tuas (crescidas, né?) crianças lindas - mais a de D. Flores -, com quem tanto brinquei nem tanto tempo faz assim, a emitir opiniões, seres em expansão. Logo pensei: como não fazemos mais isso? Por analogia, lembrei que dia desses andava eu com a alma em turbulência, quando, de súbito, recebo o convite para almoçar em casa de uma amiga. Seria almoço, em plena terça-feira. Logo eu, trabalhador respeitabilíssimo de uma quitanda que abre cedo e nunca tem hora pra fechar??? Pensei, pensei, e por que não? Obrei qual um mouro de forma a dar conta antecipadamente das demandas sem fim, para que pudesse ter o gostinho de uma travessura tão rara, uma...escapada... Desejei permitir-me. Sabe assim, como resumem por aí? Nunca dou-me a isto, cáspite!


Comprei uma casinha com biscoitos amanteigados para dar de presente à princesinha da casa, filha da mulher de minha amiga (infelizmente, as duas estiveram ausentes). Fechei a vendinha e corri a Copacabana, levando uma garrafa de vinho. Ah, que tarde...O gostinho da gazeta e a conversa que fluía no apartamento calmo, com uma surprendente mata por cenário, nós dois, pelo tempo em que não nos víamos, tão sinceramente interessados na vida um do outro. A comidinha deliciosa (casa com criança sempre tem comidinha deliciosa)... Mas, logo uma ligação me fez retornar à quitanda e às obrigações. Despedi-me sem ver as outras duas queridas. Ao regressar à bat-lojinha - bendito sejas Tempo -, outra ligação relançou-me ao mundo das delícias pequeninas, imensas, sem preço. Era Mimi, a garotinha com quem eu adoro brincar no mar, me agradecendo o mimo do biscoitinho. Essas ternuras vieram somar-se à linda surpresa de meu filho vir falar comigo no MSN, com as letrinhas indecisas de seus nem 8 anos, a dizer que estava com saudades. Momentos assim... ah, momentos assim, atormentam-me com o que faço em relação ao tempo. Que deixo de viver com os que amo.


Sob este tema fascinante, o do Tempo, muito se têm ocupado - e com que propriedade - as Artes. Algumas viagens encantadas:


1. O estupendo livro Sonhos de Einstein (Companhia das Letras), uma coleção de fábulas incríveis de Alan Lightman.


2. O filme O estranho caso de Benjamin Button.


3. O poema de Hilda Hilst:


Corroendo
As grandes escadas
Da minha alma.
Água. Como te chamas?
Tempo.


Vivida antes
Revestida de laca
Minha alma tosca
Se desfazendo.
Como te chamas?
Tempo.


Águas corroendo
Caras, coração
Todas as cordas do sentimento.
Como te chamas?
Tempo.


Irreconhecível
Me procuro lenta
Nos teus escuros.
Como te chamas, breu?
Tempo.


4. A linda canção Tempo afora, de Fred Martins (http://b.radio.musica.uol.com.br/radio/index.php?ad=on&ref=Musica&busca=Tempo+afora&param1=homebusca&q=Tempo+afora&check=musica&x=30&y=9)

Como vos agradeço nosso encontro, querida, ansiando por mais momentos de calor! Para todos.


Abraços do amigo.

Albuquerque

7 comentários:

Nine de Azevedo disse...

Caro Visconde
Vossa senhoria me fez viajar no tempo e no espaço.Me vi nesse almoço da nossa amada Rainha.Ela ja tinha me falado dele ,mais sucintamente.Com a vossa descriçao e o da escapada fiquei com vontade de comer biscoitos amanteigados com café,o bacalhau eu tb fiz,mas e AH ,os profiteroles citados...Je m'acuse!sou gulosa entre outros pecados.Em tempo ,adorei o filme citado ,os livros vou atras!Lindo texto, adoravel Visconde ,bjs a voce e a Rainha amada

Susanna disse...

Fiquei com uma invejinha..rs.. Queria ter tido um encontro desses em casa.

Meu beijos a todos!
Visconde, Nine, Guilhermina, meus carinhos...

Visconde disse...

Nine, querida, se és gulosa - e se te conforta -, sou o irmão gêmeo (univitelino) de Pantagruel.
Não à toa, hoje, às 6 da manhã, já estava este teu parceiro de esquina a apertar o passo no calçadão.
Celebremos sempre à exuberância da vida.
Muitos biscoitinhos a alegrar teus dias.
Um beijo.

Anônimo disse...

Querido Visconde me consola sim!Adoro gente de verdade que come.Faço de 1H30 a 2H30 de exercicios 6 vezes por semana para ficar no 42 ,quase 43 se existisse tal coisa...sou inimiga numero 1 das dietas e adoro cozinhar...ja hoje fui, depois da labuta matinal ,comprar biscoitos amanteigados e bem casados graças a sua inspiraçao.Beijos

Nine de Azevedo disse...

nao sei porque, deve ser um bobo da corte da rainha que me fez aparecer como anonimo!

Visconde disse...

Nine, fervem-me as faces só de confessar que acabo de encomendar pizza e ciabata do Domino`s.
Diga-me querida, em que smoking poderei entrar amanhã?

guilhermina, (ataulfo) e convidados disse...

meu caro amigo,
meninas desta corte,

retornei ao bilhete do nosso Visconde algumas vezes... não pelas lembranças do encontro entregue às paixões gustativas, mas pela linda associação do prosaico ao tempo.

esse saber que só nos vem depois, e somente aos olhos atentos de corações delicados, e que logo a seguir nos escapa, deixando um recado aos alfabetizados no afeto: não se dispensam os amores, os eleitos, os fraternos... nada é mais precioso nesse espaço-tempo pequeno em que nos encontramos.

assim, vos agradeço a companhia, com vontade de tê-los mais e mais próximos.
beijo,
Guilhermina