quinta-feira, 12 de março de 2009

ela é um quadro de Rembrandt: mestre do claro-escuro - por Nine



Nem sei por onde começar a descrever o quadro... Tudo que me chama a atenção é a solidão, a dor, um choro alto de soluçar que quando acaba ficam as lágrimas a escorrer como pérolas lentamente pelo rosto dela. Ela nunca as seca. Fica parada olhando o vazio. Vai para terras distantes. Terras que não existem mais, como Atlantis naufragada. Mas ela, como um catavento se movendo em todas as direções interiores, vai para lá assim mesmo. Só encontra dor, desalento, agreste, terra rachada e infecunda.

Ela não tem escapatória, aonde ir buscar aconchego, parece um animal ferido acuado sufocando sem conseguir gritar. E também o que adiantaria gritar?...

Não o traria de volta, não apagaria a dor, a tristeza, a rejeição, a traição, a crueldade mesmo do abandono. Virou um cão sem dono. Nem vira-lata é, porque não anda por ai perambulando livre e se divertindo a mancheias em camas alheias. Só fica ganindo no seu canto escuro. Às vezes ela vê umas luzes. São afetos, são filhos, são amigos novos e velhos. Mas logo tudo fica escuro de novo...

Sua vida agora é uma pintura de claro-escuro. Bonita e profunda. Companheira de Gericault, louco e desesperado, vivendo numa bolha patética e de intenso sofrimento.

Acabou o tempo de amor, harmonia, de frissons de volúpia, de risos e de aconchego. Que também só existiam para ela nos últimos tempos com ele. Para ele, já tinham acabado mesmo quando ele ainda estava lá... Ela não percebeu...

Os lamentos dela, nesse país estrangeiro que virou a sua vida substituíram seus sonhos. Viraram pesadelos. Acho que por isso ela não dorme, tem medo dos sonhos-pesadelos...

Baudelaire, seu poeta predileto, escreveu que tinha que acreditar no diabo porque o sentia nele. Ela acha que ele vive escondido na sua casa. Nem S.Miguel de quem ela era tão devota, a livra desse tormento. Angústia e solidão, esses sim, os verdadeiros diabos!

Ela queria a expiração dos temores, do ressentimento, da mágoa e principalmente da dor. Queria um novo amor, pelo menos paz. Ser uma alma atormentada é tão exaustivo...

Ela acende velas para sair da escuridão, mas elas logo se apagam. A luta anda desigual. O pedaço dela que ficou nele, o futuro juntos que se perdeu, como restabelecer, se regenerar ou criar outro?

A aposta enorme que é amar o outro é muito arriscada, só para muito corajosos. Porque nós sabemos do nosso comprometimento, mas nunca sabemos realmente o do outro. São os gestos, as atitudes do outro é que vão demonstrar, não as palavras. Às vezes não ficamos muito atentos, é a vida para levar... Não enxergamos bem o outro, ele também dissimula, torna mais difícil esse caminhar juntos.

Nossas almas são tão frágeis, se quebram facilmente. Mas ela ainda não desistiu. Ainda vai continuar a procurar a razão dela de conjugar o verbo AMAR. Com todos os riscos e aventuras decorrentes... porque seria mais insensato não pensar nessa possibilidade.
dedicado a Rainha Guilhermina e a Bailarina Suspensa,
duas novas luzes na minha escuridão.
Bjs afetuosos.
Nine

5 comentários:

guilhermina, (ataulfo) e convidados disse...

Nine, moça querida,

Nem sei por onde começar... digo eu. Agradeço a sua confiança? Temo desapontá-la? Não digo nada e apenas te envolvo num longo abraço? Não sei... nada me parece o suficiente.
Dizem que a vida é risco, que o vazio é o ponto de partida (ou será de repartida?) e a solidão o começo do encontro possível. Que seja próximo, mas não se engane, diabos há por toda parte... Quanto à paz... acho que só sei falar de tormentos... me perdoe.
Bj carinhoso e um abraço apertado,
Guilhermina

Susanna disse...

Nine, minha flor predileta!

Agradeço imensamente por ter dedicado a mim, e à queridíssima Rainha Guilhermina, esse texto.

Vou além: obrigada por me apontar e enxergar como diferencial na sua vida. Ser luz é uma grande responsabilidade, mas, e em se tratando de você - pessoa que a cada dia ganha mais terreno no meu coração - eu aceito o desafio. Tentarei me não apagar, pra não te deixar na escuridão sempre.

Refleti duas coisas sobre o que você escreveu: no texto você diz que um determinado tempo acabou; um tempo em que a felicidade era sua, o amor era seu. Um tempo em que você dormia com outro corpo ao seu lado na cama...

Pois bem, tome este tempo como algo que demora a modificar-se - como foi no seu caso -, mas esteja atenta à alterações. Todo tempo muda! Se este tempo, que te vem hoje à memória adornado por dores e "pérolas", acabou, é hora de começar a planejar - ou viver - o novo tempo.

Observe bem, Nine - essa é já a 2ª coisa -: esse óleo, de Rembrandt, nos mostra muito mais que a alternância entre claro e escuro.

Há uma escada... Ainda existem outras veredas a percorrer, florzinha. Siga e suba por ela. Os primeiros degraus tem iluminação suficiente, julgo eu. Mas, no momento em que teus olhos se turvarem - por lágrimas ou escuridão -, chama a mim. Te ilumino o caminho.

Com todo o meu carinho!
Susanna
[Bailarina Sus-pensa]

Paty Whately disse...

Lindo texto!
E que nossas almas fiquem sempre fortes e o verbo amar esteja sempre presente!

beijinhos

Paty

DOmi disse...

Lindo Texto..... E mais bonito ainda é o carinho de todas por aqui!!!!

muito beijos a todas
e Parabens !!!! cada vez melhores os textos

Nelson (Pô, meu!) disse...

Nine,

A mais admirável virtude do ser humano é a determinação de lutar sempre, pelo que se deseja.

E é lutando, que sabemos estar vivos.

Muito bom!

Beijos,