quinta-feira, 26 de março de 2009

Orgulho e Preconceito - por Nine

Querida rainha Guilhermina e membros da sua corte,

Tenho refletido muito sobre tolerância, diferenças e preconceitos.

Luto contra os meus acirradamente. Tento entender quem os tem, mas tenta vencê-los, assim como eu. Só não me conformo com os que tem, e não fazem nada contra!

Refiro-me a qualquer preconceito. Eles pairam como uma sombra malfazeja nos afastando de pessoas, muitas vezes, maravilhosas.

Começo pelos que eu mesma já sofri, e ainda sofro às vezes... Meu pai se chamava Isaac, era comerciante, não somos judeus, talvez marranos, somos descendentes de espanhois da Andaluzia e portugueses do Algarve. Minha mãe dizia que temos sangue índio também de tribos das Gerais. Cresci escutando quando passava na rua: Ela é bonitinha, pena que é filha do judeu da loja! Uma vez no ginásio uma falsa amiga, gritou depois de uma jogada mal sucedida de vôlei: Também, filha de judeu só podia dar nisso! Já tive os que implicaram com a minha bonita cor de caramelo claro. Aliás nunca me preocupei com a minha cor, até ir aos Eua pela primeira vez, e me dizerem que eu não sou branca como se me insultassem! Agora digo, escrevo, que sou hispânica. Para completar o quadro, tenho uma tatuagem tribal, grande, abaixo do umbigo. Preciso ficar dizendo que tatuagem não muda caráter de ninguém, nem qualifica ou desqualifica uma pessoa. Deveria ser só uma questão de gosto, mas não é! Não sou bandido, nem marginal, nem prostituta. Apenas gosto de tatuagens. Acho que tatuadores são artistas e amo toda forma de arte.

Preconceitos segregam pessoas, trazem violência e tudo que abomino no ser humano. Sou como um sismógrafo, sofro de hipersensibilidade. Qualquer abalo, tremor na crosta humana eu percebo, mas tenho meus pontos cegos...

Quando vejo, não entendo como tem gente que deliberadamente não gosta de uma pessoa porque:
1)ela mora na zona leste de São Paulo (creio que seria como morar na baixada no Rio ou nas favelas),isso, sem saber nada dela...
2)ele é corintiano, flamenguista: Tudo "maloqueiro","barraqueiro", etc...
3)ele é preto! Credo!
4)ele é japa! Ave maria!
Depois do 11 set,
5)ele é árabe, muçulmano! Por Alah!
6)ele é homosexual! Instaurem a santa inquisição
7)ela é lésbica! Idem
E vários outros que não cito porque senão a crônica iria longe ...

Não é visivel quanta gente deixamos de fora da nossa vida dessa maneira? Miopia social?

Penso que são essas pessoas que provocam os aborrecimentos, as mágoas, a tristeza e a miséria do mundo. São fazedores de dramas. Não vejo qualidades nessas pessoas. Sei também que é um tipo de preconceito e orgulho. Julgo-me melhor que elas. Para isso também preciso lutar, não sou melhor que ninguém. Tive a sorte, a genética, a formação, de ter a mente mais aberta, de ser tolerante com as diferenças. Me conecto com os seres que encontro por ai com o coração, as aceito com a emoção. Deveria ser sempre assim para todos num mundo ideal...

Mas a realidade nos grita outra coisa. Continuamos a pré-julgar as pessoas. Para mim tudo isso é evanescente, pueril, fútil. E perigoso. Nossos demônios interiores precisam ser vencidos por nós mesmos, com ajuda de um psicanalista se possível. Mas tem gente que vive a procura de demônios exteriores. Fica mais fácil para eles colocarem os problemas no outro. São os "perdidos", que segundo eles, deixam a sociedade ruim. E os perdidos são todos que ousam pensar diferente, ser diferente. Os que vivem no "dark side".

O orgulho e o preconceito transformam o ser mais elegante e refinado num selvagem assassino. A história já nos deu inúmeros exemplos, e a gente não aprende, nem por bem, nem por mal... Bestial no ódio, orgulho animal e cruel. Eles ficam nus, precisamos apontá-los!

"Paciência demais é covardia" (Líder dos Panteras Negras).

beijos afetuosos a todos e especialmente a você minha rainha,
Nine Azevedo

Este texto foi motivado, segundo a própria autora nos conta, pela matéria publicada no Yahoo: Gays precisam de tratamento, acreditam terapeutas britânicos.