terça-feira, 10 de março de 2009

patêr de figo - por Visconde de Albuquerque

Minha querida,

A alma sensível desse teu amigo - cabeça de homem, mas o coração de menino, à maneira de Dom Erasmo, o Grande - se choca diariamente com a grandiloquência do nada, a incrível repercussão do vazio. Outro dia, li que um jovem ator de TV se preocupa com o que diz, porque sabe que é um "formador de opinião". Pelas barbas do profeta, que todos os seus longos fios brancos me livrem desta expressão "formador de opinião". Mas, vá lá que seja, que este ator tome bastante tenência de suas palavras, pois o que vier a falar será de profundo vetor a orientar-nos a existência. Na outra ponta, uma veterana atriz, por sua vez, ao ser indagada porque furava a fila num camarote no carnaval, sai-se com: "Eu sou fulana de tal, meu amor".

Minha amiga 1: em algum momento da entrevista de Nélida, houve alguma auto-referência como "formadora de opinião"? Minha amiga 2: alguém já viu essa que é uma das ocupantes da Academia Brasileira de Letras num flagrante fura filas, por identificar-se como Nélida Piñon? E o que dizer da resposta mais frequente dos que se têm em altíssima conta (qual é o nome do analista deles? qual é o nome do analista deles?), à singela pergunta: "Qual o seu maior defeito?" Inveja? Intolerância? Soberba? Cobiça? Avareza? Orgulho? Qual o quê! "Perfeccionismo", confessam, enrubescidos, essa terrível deformação de caráter.

Querida amiga certa das horas incertas, queridos amigos de minha amiga nesta aconchegante esquina, respondam-me com pureza d´alma: se perfeccionismo é o pior defeito, qual será a melhor qualidade dessas gentes? Afastemo-nos o quanto antes deles, pois que, na comparação, o que será de nós? Seremos reduzidos a uns pobrezitos ciumentos, mesquinhos, apequenados diante de tão auto-proclamada importância. Dói-me a pretensão que acomete as gentes, em todos os setores da vida social.

Dia desses, fui, na companhia de minha boa Vivi, almoçar num restaurante empetecado no Leblon. Era lugar relativamente novo e que há tempos ensaiávamos de ir, pois havia sido alvo de fartos elogios da crítica de gastronomia de O Globo. Muito bem. Para abrir os trabalhos, chamei o garçon e perguntei se havia caipirinha e de quais frutas, pois regressávamos diretamente da praia e o calor aturdia corpos e mentes. Estávamos, pensei, ingênuo que sou, em um país tropical. Em pose solene, o senhor devolveu-me: "Só temos caipirinha de limão ou lima, que aqui é uma casa de vinhos". Discutirás em momentos de abstração da alma, minha cara? Pois eu é que não haveria de. Respirei fundo, até porque nossa intenção já era realmente de prestarmos homenagem ao Baco à hora do repasto: "Traga-nos a Carta" - rendi-me.

Conforme já disse, a temperatura fulminava a pele e os miolos dos cidadãos, mormente dos botafoguenses, que se sagrariam campeões momentos depois. Escolhemos um espumante bem gelado, de modo a refrescar os ânimos. Para ativar as papilas gustativas, pensamos em pedir como entrada um patê com torradinhas e chamamos o emperdigado. "De que é esse patê, gentil homem - indaguei-lhe?" Ah...os critérios da objetividade...com muito esforço, consegui depreender que se tratava de algum composto de miúdos. Na intenção de ajudá-lo (e ajudar-nos), tentei sintetizar: "Patê de fígado, pois não?" O homem iluminou-se: "Sim, patêr de figo...não a fruta...figo, figo, entende?"

Minha boa amiga, fazes uma idéia desta cena? Acaso fazes uma pálida idéia de minha doce Vivi fitando-me com apreensão, temerosa do que pudesse vir a suceder? A presunção garçonística aliada à apreensão com o resultado alvi-negro poderia produzir efeitos bombásticos - deve ter imaginado a dama. Em presença de tão sophisticated lady, outra alternativa não tive que não fosse proclamar, em momento de grande arrebatamento franco-galego-pindorama: "Que venga el patêr de figo!" Na sequência, pratos de pretensão assombrosa (e de preços correspondentes) chegaram à mesa. Ingredientes de má qualidade, pontos de cozimento duvidosíssimos, os recheios das massas sabendo a congelador. Em suma, um resultado de (ausência) de sabores que nos deixou saudosos de um picadinho com arroz branco e ovinho com gema mole sobre este último. Volta o homem de preto: "Gostaram?"

Oh, minha querida, com o Botafogo àquela altura já campeão, vou discutir com o senhor de paletó, ele também um bravo botafoguense, louco para nos largar e ir para General Severiano sorver uns chopes? Fiz hum-hum com a cabeça, tentando ser afável, como é de meu feitio, e já ansiando pela conta, quando ouvimos a sentença épica: "Então, querem uma sobremesa? É na sobremesa que o chef se supera!", declarou em tom triunfal.

Querida Guilhermina, o que um campeonato vencido pelo Botafogo não faz por este teu amigo? E mais não digo, sensibilizado que estou pelas inesperadas manifestações afetuosas de tuas meninas do blog para comigo.

Um abraço terno.
Albuquerque.

6 comentários:

Nine de Azevedo disse...

Amavel Visconde
Sobre os perfeccionistas ,se me permite um conselho ,junte-os com os leitores de caras ,quem e outros istas...E que S.Miguel nos livre deles!
Qto ao seu almoço e o paté de figo do amigo da onça,para alguem que adora cozinhar como eu, seria uma "catastrofe" !Como so dizem bem os franceses.Farei novenas para o cozinheiro de Napoleao, que virou santo, depois de se matar em Paris porque nao conseguia dar um ponto bom ao mascarpone para fazer a sobremesa preferida do imperador, para que o caro Visconde com seu delicado estomago botafoguense e de sua Vivi ,saborei coisa melhor no futuro.bjs

Susanna disse...

Visconde querido...

Primeiro, agradeço por tão generosamente dirigir-se a nós, as "meninas afetuosas da Guilhermina"... Lindo esse mimo!

Quanto ao perfeccionismo.. ai ai.. Tema difícil! Sou uma das que 'sofre desse mal'.. Não o vejo como defeito, se for distribuído em saudáveis doses por aí...

E sim, mas que experiência essa do restaurante, hein, querido?

Fiquei pensando sobre quem teria sido o crítico da casa, que a envolveu em tantos elogios quando da publicação da matéria no O Globo... Pessoa de paladar não muito confiável, suponho. Enfim, folgo em saber que isso faz parte agora do teu passado, e da Vivi.

Peça indicações às bacantes quando pretender homenagear o deus delas... Certamente terão melhores indicações que o jornal..rs

Beijos a todos!
Guilhermina, adorei te ouvir!

eduarda disse...

Sabe Visconde,a ler-lo,confirmo a suspeita que sempre tive de que os nobres sabiam e sabem mesmo como viver neste louco mundo.Que sorte tem a Vivi, não?.

Visconde disse...

Nobre, eu, doce Duda? Nobres são vcs: vc, Maria, Nine, Susanna...
Quanta gentileza! E gentileza é mico leão dourado. Infelizmente, em extinção.
Um beijo enluarado.
Buca.

Maria disse...

Pois então, embora as pseudodelícias citadas não tenham despertado o menor interesse, tal texto traz uma sensação boa de que existe mente pensante e educada ao mesmo tempo, pq não?! Mas devo dizer que estou a pensar quem sou eu diante de quem com um só nome pode tudo? Diante de quem tem perfeccionismo por defeito, por não mais caber entre as qualidades.
Ai,ai... que bo não ser ninguém para eles. Sentiria-me ofendida, ora pois!

Aplausos, Visconde.
Meu beijo, Guilhermina querida.

guilhermina, (ataulfo) e convidados disse...

Caríssimo Visconde,

Que luxo! Meninaaaaasssss...rsrsrs
E Nine ainda estava com ciúmes!?!
Como vcs veem, o nobre sabe fazer a corte... Eu, por minha vez, confesso, queria mesmo era um bom gole, ao menos, do espumante.E de mais a mais, se o "figo" não era possível, ao melhor exemplo de Maria Antonieta, meu caro, por que não pediu um brie?
Bjs
Guilhermina