sábado, 14 de março de 2009

enquanto pessoa, e não é fernando - por Visconde de Albuquerque

Queridíssima amiga,

Não sei se você já viu, acredito que sim, e vocês, meninas, idem. De todo modo, acabo de voltar da exposição de Vik Muniz no MAM, e escrevo sob o impacto dela. Que poemas são aqueles em forma de imagens? Nem sei o que dizer. Não tem essa discussão eterna sobre o que é arte e o que não? Arte não tem discussão. A gente bate o olho e vê. Reconhece aquilo como identidade nossa, gene, civilização.

De imediato, pensei no livro Cartas a Theo (L&PM). Com os escritos entre julho de 1873 e julho de 1890 de Van Gogh a seu irmão - e patrocinador -, este livro desmancha a imagem cristalizada que se tem do gênio holandês como (só) o alucinado que arrancou a própria orelha. Muito longe de ser um sem noção intuitivo, discutia pintura em altíssimo nível, com profundo entendimento de técnicas e arrojado pensamento estético.

Novembro de 1885 – Fevereiro de 1886

Com tudo prefiro pintar os olhos dos homens, mas que as catedrais, pois nos olhos há algo que nas catedrais não há, mesmo que elas sejam majestosas e se imponham, a alma de um homem, mesmo que seja um pobre mendigo ou uma prostituta, é mais interessante a meus olhos.”

“Já desenhei duas tardes lá, e devo dizer que acredito que, justamente para fazer figuras de camponeses, é muito bom desenhar à antiga, sob a condição, com tudo, de que não se faça como de hábito. Os desenhos que vejo, na verdade acho-os todos fatalmente ruins e radicalmente fracassados. E sei muito bem que os meus são totalmente diferentes: O tempo dirá quem está certo.”

Mas, para além das artes plásticas, embatuco-me sempre com a língua, a língua, a língua. Se existe uma coisa contra a qual este amante da linhagem portuguesa se debate com toda a dedicação é quanto ao repertório de palavras/expressões da vez, marteladas à exaustão na tv, na imprensa, na rua, na chuva, na fazenda, numa casinha de sapé. Já foi "a nível de", "enquanto pessoa" (quisera fosse o bardo luso), "gratificante", "na atual conjuntura", "fora de contexto", "discurso articulado", "instigante"... Jornalistas, invariavelmente, começam entrevistas com: "como é essa coisa de..?" Atores declaram: "esse papel foi um presente (muito prazeroso, blargh!!!)", "fulano é muito generoso em cena ..." Economistas repetem as "janelas de oportunidades", "os cenários da globalização..." (que, fossem de Mangueira, seriam uma beleza).

Agora, tem o tal de "se reinventar". É a modernidade da ocasião. "Sicrano tem a capacidade de se reinventar..." "Os Estados Unidos precisam se reinventar..." Valei-me, última flor do Lácio! E essa agora de todos acharem lindo não se levar a sério? "Ah, eu não me levo a sério"... E o jornalista lá, endossando a asneira: "Beltrano tem essa capacidade de rir de si mesmo, de não se levar a sério..." Acuda-me, rainha, o que esperar de uma criatura que não se leva a sério? Tudo? Nada? Confundem bom humor com falta de seriedade, reproduzindo o equívoco ad nausean. Isso quando o cidadão não faz observações "pontuais", "com foco em"...

E o que dizer do abominável "com certeza"? Êi, alguém viu o "sim" por aí?
"Você vai estrear alguma peça este ano"? Com certeza.
"A senhora vai ao médico hoje"? Com certeza.
"Teu genro gosta de ópera"? Com certeza.
"Esse terno é para lavar a seco"? Com certeza.
"Gordura trans é indicada para lubrificação de motor de aeronaves"? Com certeza.

Como diriam os grandes filósofos gregos Seu Georgeous e Ana Carolinus: "É isso aí..".Nem vamos entrar no asqueroso terreno do gerúndio, se bem que não resisto: outro dia, atendo o telefone e a funcionária do telemarketing dispara: "Com quem eu devo estar falando?" Como é que é? Com quem eu devo estar falando? É a superação do apogeu. Depois, ridicularizam-se os jogadores de futebol - a maior parte deles de origem humilde, portanto, sem acesso decente à instrução -, por reproduzirem o mesmo ramerrame "vamos entrar com tudo, o importante é que o grupo está unido, estamos preparados taticamente, não tivemos felicidade naquela jogada..." Jogadores de futebol - embora se deseje que cresçam em outros campos além daqueles de capim - não têm obrigação de ser escorreitos e fluentes quando abrem a boca.

Mas de gente que atua na área de cultura e informação e se diz letrada, há de esperar-se um pouco mais. Espera-se, sim, que fuja de jargões e de soluções simplórias ao expressar-se. O massacrante mais do mesmo vai a tal ponto que, quando precisamos, genuinamente, empregar determinado termo, ele já está de tal forma esvaziado de sentido que sua utilização beira o patético. Aí, temos que recorrer a sinônimos para substituí-lo, mas que muitas vezes perdem em significado. Sou dos que acham que a comunicação é algo tão delicado e passível de tantas variáveis de interpretações que a língua, a importância dela, se dá na medida em que consegue transmitir algo, o que se quer, nem que seja pedir um cachorro-quente em Kuala Lumpur. Lograste comprar teu pão com salsicha na Ásia? É o que serve.

Mas devemos ir muito além. Preguiça intelectual rouba o tônus da vida. E busquemos, obstinadamente, concisão, simplicidade, graça (não eu, evidentemente, este incorrigível verborrágico). Miremos em Veríssimo (Luiz), acho eu, o texto mais bacana do jornalismo (por concisão, simplicidade, graça). O chato é que não me lembro agora de quem ele é filho. Por fim, a propósito do que pode/o que quer esta língua, gostaria de pedir ajuda a vocês desta iluminada esquina na solução de um enigma que me atormenta há quase três décadas: a tradução (livre que seja) em português da letra de Álibi:

havia mais que um desejo
a força do beijo
por mais que vadia não sacia mais
meus olhos lacrimejam seu corpo
exposto à mentira do calor da ira
do afã de um desejo que não contraíra
no amor, a tortura está por um triz
mas a gente atura e até se mostra feliz
quando se tem o álibi
de ter nascido ávido
e convivido inválido
mesmo sem ter havido

Em não me ocorrendo despedida mais original,
Um beijo no coração de vocês.
Albuquerque.

5 comentários:

Dama Nine de Azevedo disse...

Caro Visconde
Ah concordo com tudo que escrevestes.
Nao vi a exposiçao do Vik Muniz, mas conheço seus trabalhos e sao admiraveis.Qto a Van Gogh ,li esse livro que voce citou e nao so ele ,mas todos nos, nao nos reduzimos a um rotulo so.Por isso mesmo ,como ele escreveu na carta ,nossas almas sao tao interessantes.Sobre as ocorrencias de linguagens , ainda bem que minha unica é dizer :Credo! a essas outras!bjs

Visconde disse...

Gratíssimo pelo comentário, dama Nine! Muita delicadeza de sua parte.
Em tempos de visita de nosso guia a obama, sugiro a todos a leitura da coluna de Eliane Cantanhêde na edição da Folha de S. Paulo de ontem. Um trecho:

Menas, menas...
BRASÍLIA - ...Mas a grande estrela vai ser mesmo o nosso Lulinha, que não vai pegar o Aerolula, voar esse tempo todo até Washington e ter a honra de ser o terceiro líder a pisar na Casa Branca de Obama para chegar lá humilde, modesto. Muito pelo contrário. Ele quer ir não só como presidente do Brasil nem mesmo só como líder regional, mas como um protagonista mundial. Um nordestino retirante que fez a vida e a carreira política em São Paulo até virar presidente.
Um jovem criado pelos avós brancos e de classe média no Havaí e na Indonésia, que se tornou o primeiro presidente negro da potência. Mas Lula deve ter cuidado. O risco é que tente ensinar a Obama como consertar os bancos, segurar a crise internacional, mudar a ONU, o FMI e o Banco Mundial e, de quebra, como tratar de Bolívia e Cuba a Peru e Colômbia. O céu é o limite.
Isso lembra um pouco uma ironia do ex-presidente Itamar Franco, depois de convidar, em vão, José Serra para ser ministro da Fazenda do seu governo e ouvir um programa de governo inteiro: "O Serra não quer ser ministro da Fazenda. Ele quer ser presidente no meu lugar!".
Obama não pode sair do encontro de amanhã com a mesma sensação: "O Lula não quer ser líder da América do Sul. Ele quer ser presidente dos EUA!".
Bom sábado, meninas.
Albuquerque

Janaina Amado disse...

Que dslícia este texto do Visconde, como é bem escrito! Ifelizmente não vi a exposição, nem vou poder vê-la, não estou no Rio. Mas que bom ter lido o texto!
PS - O Luiz Fernando é filho do grande Érico Veríssimo.

Susanna disse...

Ah Visconde, você sempre nos banhando com sua erudição tão generosa... E além disso, trazendo ótimas recomendações!

Adoro ler-te!

Beijos no coração de todos!

Susanna

Visconde disse...

Estimadas Janaína e Susanna,
Ardem-me a face as vossas palavras tão gentis! Estão elas de fato impressas aqui ou terá sido um sonho meu, a buscar quem escreve longe?
PS: Jana, dizer que não lembrava de quem Luiz era filho foi só uma brincadeira, à guisa de querer mostrar que, por trás da (aparente) simplicidade de seu estilo, havia um poderoso arcabouço na estante doméstica a sustentar-lhe a escrita. Não seria nem louco de cometer um erro crasso deste aqui, posto que nossa Rainha, não obstante dulcíssima, transforma-se em feroz imperatriz quando está em jogo a defesa da literatura pátria. À esta altura, ela já haveria despachado-me para a guilhotina ou, mais contemporaneamente, demitido-me do blog por justíssima causa.
E tu, princesa, que já portas prenome lindo, de onde vem teu Amado?
Beijo-as.
Albuquerque.