domingo, 22 de março de 2009

topografia da existência



Estive ao vivo e a cores com a Susanna. Esperava por alguém que fosse alta e determinada, vestida num jeans (já que recentemente ela nos contou que não usava vestido), cheia de arestas, com o olhar agudo e a língua afiada. Eu não sabia bem como nos reconheceríamos e não me venham com essa de que a foto dela está aí, não tinha como errar, porque a imagem minúscula que está aí não revela ninguém.


Não nos perguntamos tampouco como estaríamos vestidas, nem por algum traço que nos ajudasse a descobrir uma à outra. Marcamos um lugar e pronto. Sentada na varanda, um andar mais alto que a rua, eu tentava uma vantagem – vê-la antes de ser vista. Aconteceu de algo me distrair dos movimentos da rua e eis que uma voz doce e mansa me perguntou – você é a Guilhermina?


Levantei de pronto denunciando que vir de vestido era um golpe. Ela só sorriu. O abraço foi sem cerimônia e a conversa farta. Falamos sem pausa nem reticências durante três horas e só interrompemos porque ela ainda tinha uma boa distância para percorrer até em casa. Como interlocutor, ela foi delicada e perspicaz; arguta mas livre de arestas e consistente na placidez dos modos mesmo diante dos vulcões.


Tudo que ela me trouxe era lindo! A juventude é linda! O despojamento, a avidez, as idéias que trazem certezas, Os ideais que parecem que não morrerão nunca, as mil linhas que sublinham as paixões. Ah! As paixões! E, não se antecipem, pensando que estou falando somente de amores, de carne, de sexo, de namoro, da eleição de somente um, de casamento... isso é só uma das possibilidades das paixões. O que Susanna me trouxe foi a paixão na respiração. Um jeito de ver a vida e tudo que ela envolve. De sofrer sem comedimento nenhum com tudo que a ofende, que a confina, que a impede. De recusar tudo que pode arrefecer esse modo de estar vivo, de andar no mundo e de sonhar com ele. Seja de onde vier: pode ser do pai, da mãe, do namorado, da amiga, do chefe, do professor. Pode ser do anônimo, do amado, do conhecido ou não. Se é impedimento, ela não quer e não adianta insistir. Se é pra sofrer, que seja! Não pode é ser morno, insosso, insípido e inodoro. Aliás até a água é H2OH!!!!! Susanna é mansa na forma, não no que lhe vai por dentro.


Depois que Susanna se foi, voltei a ficar só comigo... Então vim pra esta esquina onde parece que o mundo recomeça e que o horizonte se alarga só para me garantir que o infinito existe e ai de quem duvidar! A verdade é que esta esquina tem me feito me lembrar de mim. Não de quem eu era, mas de quem eu sou e andava esquecida.


Este rascunho é na verdade um agradecimento à juventude que me chega, emprestada por vocês, e me transforma em uma igual. Pela mão de vocês o tempo fez um contorno só pra me devolver o que nos últimos anos andei largando por aí. Meninos, eu tinha me convencido que paixão era só risco, só desperdício, só confusão. Eu tinha acreditado que a maturidade é um exercício de se com-formar (!), eu tinha empoeirado. Como se assim estivesse combinado que o sofrimento seria menor, e que o garantido me visitaria em seu lugar. Andei destreinada nas confissões de amor e confundindo adrenalina com ataque cardíaco. Entulhei o dia de obrigações que me afastassem da vida e disse a mim mesma que sonhos são somente ilusões.


Não envelheci porque o tempo desenhou umas linhas no meu rosto e acumulou um contrapeso no meu corpo, especialmente na minha barriga. Envelheci porque me guardei no baú e fechei as janelas.


Então vocês chegaram acendendo a luz e abrindo todas as janelas para que saísse o mofo. Trouxeram música e poesia, riso e brincadeira, quase nada de maquiagem, sandálias havaianas e começaram a conversar... simples assim, grande desse jeito. Falam de perdas, de desejos, de sonhos, de indignações, trazem citações e falam por conta própria, pedem desculpas antes até de que eu me magoe e começam de novo, sem melindres. Meninos e meninas, frequentadores desta esquina, vocês são o máximo!

***

Susanna tem um blog chamado topografia de interesses, ao qual eu insisto em chamar de topografia da existência. Freud explica: projeção e água benta, cada um usa como quer. Susanna, generosa como sempre, ri do meu ato falho, dá de ombros e me manda sempre fazer dele bom proveito.


Obrigada Susanna,

obrigada, meninos e meninas.

Um beijo,

Guilhermina

8 comentários:

Nine de Azevedo disse...

Querida Rainha Guilhermina
Tb tive o prazer de conhecer a Sus-pensa bailarina ha pouco tempo e nao posso mais me passar sem ela ,sao tantas delicadezas ,conversas, que so a distancia e um boss na linha atrapalham.Adorei seu texto, ja que voce de de maneira elegante e doce traduziu os meus sentimentos pela Susanna.Beijos para as duas queridas!

Anônimo disse...

Sra. Magestade
Ao lhe ver na esquina e vislumbra-la postei-me, oculto, p/ poder melhor conhece-la.Ao afastar-me vieram-me a lembrança estas q/ lhe repasso, pois se vieram só pode ser para entregar a Sua Magestade:
"Uma palavra abriu o roupão pra mim,vi tudo dela"
Manoel de Barros
Respeitosamente inclino-me e beijo-lhe os aneis

Susanna disse...

O que eu posso dizer?

Amo-te Guilhermina.

Um texto dedicado a mim, tão rasgado em elogios... Eu não escreveria melhor a seu respeito!

Reconheço que faltam-me alguns centímetros à altura, metros [esses a percorrer] à determinação - mas, concorde comigo, isso seria apenas mais espaço para desassossegos. Dou-me por satisfeita..rs

Quanto ao vestido, se bem te lembrares, disse mesmo que não sou fã deles por serem delicados demais - acredito que não combinam comigo. Mas os tomei por necessários em alguns momentos. Encontrar com você era ocasião importante, e o vestido viria bem a calhar. Nada de golpes: foi carinho mesmo!

Sobre o Topografia, [risos], o teu é o "da Existência". O meu, "de Interesses". E cada um o assume na forma que preferir, e couber.

Obrigada pelos carinhos.
obrigada por se libertar do mofo e da poeira. Não adiantaria nada a nossa luz se você não se permitisse.

Meu beijo, o mais carinhoso.
Sus-pensa, sol da meia-noite, ah, como você preferir me chamar! Já sabe que te irei atender!

Maria disse...

Que lindo! A descrição de sua doce jovem amiga é uma ternura e encanta mesmo sem conhecê-las. Deu pra ver a cena daqui, sabe? O encontro, a doçura do momento.

Acho que a maior lição desta tal paixão dos jovens é esse ar impiedoso que parece ultrapassar portas e janelas, mas de fato nem o faz. Aproveita sim uma fresta que tenha esquecido, por menor que seja, e talvez não tenha visto por achar que ninguém a veria. Mas ao se colocar numa esquina de encontros a luz entrou em sua janela, e sem invadir, em um restinho de esperança que a maturidade ousaria chamar de bobagem! Ora pois, vamos crescer, mas vamos crescer sem perder a paixão a custo de nada.

Beijos doces

Nelida Capela disse...

A Confraria dos 50 publica Hábitos de Leitura, Hábitos de Leitor. Participe!

Janaina Amado disse...

Texto tão alegre, leve - jovem como você está, Guilhermina. Comovente.

eduarda disse...

guilhe
vc é apaixonante.

guilhermina, (ataulfo) e convidados disse...

Queridas,

Voltei por aqui só para agradecer tanto carinho. Acho que estou vaidosa e isso é muito perigoso!
Bj
Guilhermina