quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

a loucura é nossa sanidade no amor e na arte




A loucura é nossa sanidade no amor e na arte. Nesses territórios, o ego é somente o continente entre dois mares. O ancoradouro-ponte que atravessamos, andarilhos ávidos pela outra ponta. E lá, diante do oceano, onde o horizonte é sempre depois que o olho alcança, todo o desejo é da travessia, de ir além.


No amor e na arte, nosso corpo é empréstimo, nossa condição é de redenção; e o temor, seja ele do tamanho que for (ele sempre comparece), fragmenta-se em poeira cósmica, espectadores-estrela, suspensa na escura abóbada da noite, durante a qual sonhamos acordados.

Está dispensada qualquer possibilidade de mesquinharia ou avareza. Tudo é imenso e intenso mesmo para os minimalistas. É sempre grande um dom-ativo. Há de ser liberto da reclusão toda a nossa inteireza, onde nada tem valor se for pela metade. Amor e arte, só pleno, sem economias.


Também não há porém para o amor, nem entretanto para a arte. O motivo é simples: A meio do oceano, tudo é adversidade porque tudo é a ser conquistado. Navegar é uma necessidade ou o que nos resta é o estado de deriva. Bússolas e periscópios até são recomendáveis, mas nem sempre úteis. A direção segue na razão do tudo-nada e nossas ferramentas de controle são quase sempre desapropriadas e obsoletas.


Amor e arte têm vontades próprias. Não obedecem, governam. E ignoram condições normais de temperatura e pressão. Haja vento, correntes e marés para explicar-lhes a direção. Sob seus comandos, somos sempre marinheiros e não importam anos de experiência, toda viagem é a primeira: outra excitação e outra adrenalina. Não há outra vez. Só de novo.


Eu me compadeço daqueles que passam a vida a fugir das provocações desses dois anjos-algozes. Evitam-lhes a proximidade, recusam-lhes os chamados, ignoram-lhes ofertas e armadilhas. Vejo-os todas as tardes remando de um lado para o outro em seus lagos de águas plácidas e margens previsíveis. Tudo neles é confinamento e cheira a mofo. Regozijam-se com a mesmice das horas e adoram os instantes quanto mais iguais se sucedem. Deliram lendas de horror com as quais justificam não aventurarem-se. O que não percebem é que se tornaram os piratas de suas próprias existências.


Beijo,

Guilhermina

7 comentários:

Euzinha! disse...

olá, não consegui sair de casa esses dias de carnaval, por isso ainda não deixei o livro ai. acabei ficando ilhada no meio de tantos blocos...
mas, esta semana você vai receber o livro perdido. não se esqueça, depois de ler terás uma missão continuar perdendo ele. num dos meus posts tem gente interessada em receber, pode passar pra pessoa, se você quiser.
aproveito para; dê um pulo no meu cantinho, tem um selo pra você.
beijo,

Nine de Azevedo disse...

Bom dia cara Guilhermina
tem um provérbio espanhol que diz"que o amor e o medo nao se comem no mesmo prato".Para amar é preciso coragem sempre.Sao mares perigosos e encalpelados ,mas tao aventurosos...adorei seu texto ,é impressionante sua perspicacia a respeito!bjs

Susanna disse...

"Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho."

_Camões

Beijo!

Maria disse...

...Perco a consciência mas não importa,encontro a maior serenidade na alucinação... Clarice Lispector.

Amor e arte não precisam de explicação para mim. Sou eu. E ponto.

Texto muito booom =DDD

Meu beijo

Nelida Capela disse...

Rainha Guilhermina: tem surpresa para você no Lector in Fabula!

Anônimo disse...

Guilhe
Só se acha o que se procura,não achas?
Como ensinar o pulo no vazio,o dar-se,a entrega?
Aprender...difícil,não?
eduarda

Janaina Amado disse...

Concordo com cada palavra, Guilhermina.
Só continuando o assunto: mas quando se expressa no amor e na arte, a loucura se transforma, você não acha?
PS - Já coloquei o link.