domingo, 15 de fevereiro de 2009

tabu-do-ganho - por Aderbal


Há muito venho tentando colocar um assunto em roda para discussão: é sobre o tabu-do-ganho! Não é um bloco de carnaval; não é nome de bicho, mas poderia ser, daqueles bem peçonhentos, cujos admiradores são poucos e/ou loucos.

Defino o tabu-do-ganho como aquele estranho sentimento de medo, que dá em falar o quanto recebemos (salário, pró-labore, etc.) seja para quem for!

Despesas todos falam, esbravejam e esmiúçam até os centavos, mas o ganho.... nem se cogita verbalizar. É aqui o meu ponto. O que aconteceria se um de nós dissesse quanto ganha para uma outra pessoa: um amigo, um familiar, um filho, um cônjuge, um atendente de telemarketing..., será que o ganho viraria fumaça? Sumiria como investimento na bolsa? Seria o medo de ao dizer o montante, o ouvinte estender a mão e nos pedir um tanto emprestado? Será por medo de ter que emprestar ou de não querer emprestar?

Poderia ser um tabu ao quadrado! O tabu-do-ganho levaria ao tabu-do-empréstimo. Mas que força tem o tabu-do-ganho!!

O tabu-do-ganho deve ter raízes na Índia. Suponho. Ele tem casta. Em alguns segmentos ele é forte e poderoso, em outros ele não tem força alguma.

Empregados de chão-de-fábrica (linha de produção) tem por costume comparar seus contracheques. Todo fim de mês uma rodinha se forma e não é para jogar porrinha. Eles estendem seus comprovantes de pagamento e ai de quem tiver um centavo a mais!

Na classe alta, o tabu-do-ganho é dissimulado, pois entra em cena seu primo rico, o tabu-do-caro. Ao balançar seu scotch-on-the-rocks, o executivo faz questão de dizer - EM DÓLAR - quanto pagou por aquela garrafa! É capaz de elencar toda a nota fiscal da última compra no dutyfree! Reparem que tudo o que ele comprou foi sempre o mais caro!

Já na classe média, o tabu-do-ganho reina solto e absoluto. “Magina” se um vendedor teria coragem de dizer quanto fez de comissão no mês, ou um profissional liberal divulgar o valor do seu melhor contrato.

Vou confessar. Eu já quebrei o tabu-do-ganho uma vez. Sim, e foi chocante. Naquele exato momento em que falei quanto era o meu salário, parecia que eu tinha dito uma heresia em plena Capela Sistina no anos domini de 1530! Fez-se o verdadeiro minuto de silêncio e todos se entre-olharam, procurando abrigo para não serem vitimados por uma suposta indagação da minha parte. Ao perceber o desconforto, mudei de assunto e abri outra cerveja.

Aderbal

2 comentários:

Nine Azevedo disse...

Aderbal, o tabu vem do catolicismo.Ter lucros ,ganhar dinheiro cheirava a excomungaçao.So com o advento do protestantismo, é que ganhar dinheiro passou a ser uma espécie de eleiçao, de preferido de Deus.Até pouco tempo na França, e em outros paises europeus, voce nao dava dinheiro nas maos dos comerciantes ,tinha um pires onde voce colocava o pagamento .Ainda hoje ,em alguns kiosques de jornaleiros la tem o tal pires.Mas voce deve ter razao, talvez atualmente entre o "perigo" de alguem achar que voce poderia emprestar dinheiro,ou mesmo dar!Suprema heresia!abs

Nelida Capela disse...

Todos deveriam ler este post. Vou divulgar lá no Olhar Nômade e Lector in Fabula!