segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

quando fui traição


... O que pretendo salientar é que, para além da questão cronológica, a intensa, misteriosa, atribulada, instintiva e palpitante existência intrauterina é simbolicamente suprimida, como se fosse uma experiência não vivida, ou, na melhor das hipóteses, como um esboço de vida. Pois digo, sem meandros: trata-se não somente de alguma vida, mas de toda uma vida. Vida encerrada numa redoma, vida de absoluta ilusão de proteção e estabilidade. Numa gestação clássica, as intempéries resolvem-se, sempre, num eterno retorno ao equilíbrio, movimento análogo à dinâmica pendular. A quebra desta ilusão, nas sofridas proximidades e, enfim, no advento do parto, é um evento de extrema violência, uma imposição discricionária do caos sobre a ordem, do medo sobre a segurança, do frio sobre o conforto, do grito de terror sobre o silêncio, da desorientação sobre a concentração, da ruptura sobre o elo. Não haverá, no decorrer da vida oficialmente declarada, aflição maior do que essa (e a das conseguintes idas e voltas entre a seiva do seio materno e a selva de sua ausência). Todo sofrimento que vier, e também todo o prazer, depois, será decorrente desta quebra fundamental, que redunda na obrigação de pertencer, interagir, com o mundo do lado de fora. Toda frustração posterior será uma memória da frustração primeira. Todo prazer, toda contemplação de belezas, uma memória do útero, do seio, do bem-estar. Toda intuição de paz ou ímpeto de morte será um desejo de voltar ao elo. Todo medo de ousar ou de morrer, ao contrário, será o medo do incerto que a própria vida, mesmo bela na variedade do caos, representa, onde a única certeza, paradoxalmente, é a morte.

Recortadas do belíssimo texto de Arnaldo Bloch, publicado em 31/01/09 no jornal O Globo, essas linhas têm sido responsáveis por um desassossego cardíaco a cada vez que meus olhos percorrem as palavras na tentativa de que se imprimam em meus poros. Tal descompasso, no entanto, não se dá pela memória do útero que um dia habitei, ainda que ao sabê-lo perdido para sempre, tenha sido obrigada ao experimento de outros portos, outros píeres, outras âncoras: todos devedores daquelas águas plácidas, como bem nos traduz o autor.


Compreendi em alguma dessas paragens incompletas que pactuei esse preço para a vida e, se topei seguir em frente, pretendo honrar cada prestação contratada por mim. Em troca, quero todo quinhão que o mesmo acordo me garante como legítimo.


Em alguma parte do contrato constava meu direito à Maternidade. Assim, com letra maiúscula. É desse outro lado da placenta, do corpo que se enche até a lua nova, que se promete enquanto se nutre pelas entranhas, que experimenta um reator de força e magia que quero falar. Falar sobre o que não cessa de vir. Pós-surto da derradeira separação. Sangue transmutado em seiva, amputação recriada filho. Promessa de eternidade além dos limites do meu corpo.


Esse registro de que um outro inteiro me é parte far-me-á companhia por toda a existência, assim como a promessa de, contra tudo, protegê-lo. Promessa que não poderei cumprir. E que mesmo sabendo disso, esquecerei tantas vezes.


Quantas vezes entrei, como um ladrão, no quanto escuro do sono do meu filho somente para dele me alimentar ao nascer do dia seguinte? Quantas vezes, a gargalhada no cômodo ao lado recriou aquele campo magnético de força? Só mesmo Cora Coralina para encontrar palavras que dissessem onde foi construída minha resistência. Na obrigação da minha proteção fiz-me mais forte. Da existência dela, fiz-me mais vital.


Até o dia da contramão. Da ordem ao avesso.
Do imperativo de deixá-lo ir. Esse exercício de abandonar para o qual nada me preparou. Até ensaiei o contrário. Rascunhei o dia em que ele partiria e eu permaneceria imóvel, ainda promessa de porto, de sombra de árvore frondosa. Mas não. Lá estava a exigência da lição ao contrário. Desaprender a promessa de onipotência. Declarar-me sem a solução para o que nele afligia. Deixá-lo cair até que descobrisse que somente suas pernas poderiam levá-lo ao seu destino. Manter-me imóvel no seu tropeço, silenciosa na sua dúvida, nula na sua angústia.


Recolhi-me ao meu quarto escuro, clamando por um outro sentido. Nunca poderei lhe explicar a traição como um ato de amor. Nem o abandono como a carta de alforria. Serei acusada decerto. E cumprirei a pena do ressentimento dele. Tomara, eu possa suportar. Suportarei sim, para que a vida lhe valha a pena.


Um beijo,
Guilhermina

2 comentários:

Nine de Azevedo disse...

Ah Guilhermina agora sou eu que te abraço a distancia(espero em breve pessoalmente).Essa ruptura ja a passei por tres vezes.Cada um que saiu de casa e foi cuidar da vida ,foi uma separaçao dolorida mas vital como voce diz.Separar é preciso ,deixa-los ir errar ou acertar tb...nao sei que traiçao exatamente voce se refere,mas deixa-los enfrentar a noite escura ou iluminada da vida,nao temos como escapar!Coragem querida!bjs

Susanna disse...

Ou não suporte Guilhermina, ou não suporte...

Ou suporte.

Mas não permita que qualquer outro carregue o peso de saber o quão difícil está sendo para que você suporte. Não suporte pelos outros, suporte por você. Suporte generosamente. Suporte sendo leve. Ao menos para o outro. Seja generosa consigo própria!

Beijos açucarados, com saída de pimenta!